milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

17 de janeiro de 2012

Meu dom

Sou dotado da excitante capacidade de confundir mosquito com buzina. Seria um dom exótico, se eu fosse rico. Como sou pobre, o dom é rebaixado para estranho. E vocês devem achar engraçado, por consequência.

Para mim, nada é engraçado. Minha orelha que o diga.

 

Meu dom tem hora marcada para se manifestar. E é quando estou naquele estado que parece acordado mas já estou dormindo, tipo assim, como depois do orgasmo, sabem? Então, nesse estágio do sono, se um carro buzinar ali na rua, automaticamente eu me auto-bofeteio. Na orelha.

 

Dói.

 

Essa confusão é a maior causa da minha insônia. Já rendeu uma dezena de histórias mal escritas e umas quatro demissões. De empregos também mal escritos.

Essa talvez seja a única vantagem.

O contrário também acontece. Às vezes, quando estou acordado e ouço aquele som meio-buzina meio-mosquito, fico na minha, tentando poupar-me da bofetada no ouvido. Então, passo o dia com a orelha vermelha, coçando. Vocês já devem imaginar. Com toda sorte que tenho, por certo essa é a vez que um mosquito levará meu sangue e minha paciência.

 

Paciência, por sinal, é algo deficitário hoje em dia. Eu não me preocupo com isso, pois paciência pra mim é igual a dinheiro: logo chega um espertinho e leva.

Melhor não se preocupar. Mas tem gente que se preocupa. Para eles, paciência é uma obsessão; perdem a vida tentando encontrá-la, em ritmo frenético e alucinante.

Gastam o tempo e o dinheiro que obtem a duras custas para encontrar a paciência que perdem ganhando dinheiro.

Os locais para se encontrar a paciência tendem a ser em divãs, encontros budistas e puteiros. No caminho, geralmente três motoboys são atropelados e diversos sinais vermelhos ultrapassados para não se chegar em atraso. Como se a paciência e as putas fossem fugir caso o retardo for superior ao tempo em que o semáforo está fechado.

 

Eu, como ainda não aprendi a diferenciar mosquitos de buzinas, não me preocupo com o tempo. Afinal, ele é só uma medida que inventaram para nos dizer que lá no Japão já é amanhã.

Seja como for, podem crer, o problema disso tudo começa e termina na orelha. Ouviram?

 

criado por Emir Ross    18:15 — Arquivado em: Sem categoria

5 de dezembro de 2011

Pseudônimo dois pontos

Dois mil e onze está por acabar.

E quanto mais o tempo passa, mas o paradoxo dos nomes me faz crescer um centímetro de orelha.

O nome é algo tão importante que não deveria ser escolhido pelos pais. Eu mesmo já troquei o meu meia dúzia de vezes. Ainda não acertei.

 

Mesmo assim, dois mil e onze está por acabar. E vejam só o que meu nome realizou.

Fiz prova para o mestrado: desclassificado.

Enviei projeto para o Fumproarte: não contemplado.

Mandei originais para editoras: sem resposta.

 

Nada estava dando certo para Emir Ross em dois mil e onze. Sempre que associava meu nome a algum projeto, concorrência ou afins a resposta já era esperada. Negativa, por óbvio.

Decidi participar então de prêmios literários onde o nome não é lá tão importante. Na verdade, nesses prêmios, ele é proibido. E como a aprovação do meu não era bem-vinda nesses outros processos, já foi meio caminho andado.

 

Usei pseudônimo.

E quando se usa pseudônimo, a escolha é feita às escuras pelos jurados. Ninguém sabe quem está concorrendo. E eis o que veio: 5 importantes prêmios.

Primeiro lugar no Prêmio Internacional de Contos de Araçatuba.

Primeiro lugar no Prêmio Felippe d´ Oliveira de Contos, de Santa Maria.

Segundo lugar no Prêmio José Candido de Carvalho de Contos, de Campos.

Terceiro lugar no Prêmio Felippe d´ Oliveira de Crônicas, de Santa Maria.

Menção Honrosa no Prêmio Claudionor Ribeiro de Contos, do Espírito Santo.

 

Essas situações fizeram-me pensar em mudar de nome. Mais uma vez. Abandonar aquela denominação proibida e maldita em qualquer divulgação de resultado e adotar de vez o nome Pseudônimo Dois Pontos.

Não sei se isso será bom.

O que sei é que choverão importantes editoras querendo publicar meus originais.

As universidades farão fila para me terem em seus doutorados antes mesmo de concluir um mestrado.

Os Fundos de Apoio à Cultura mandarão propostas de aprovação já assinadas eu simplesmente aceitar.

Como disse, brotarão mudanças. Possibilidades garantidas.

 

Enquanto os cartórios analisam minha requisição, continuarei a usar meu registro de batismo. Claro, seguirei nesse período sem ganhar prêmios onde o nome dos vencedores é mais importante que as obras. Mas com várias possibilidades de receber os prêmios onde os textos é que são importantes. Como disse, recebi cinco nesse ano, para juntarem-se aos demais que já somam mais de vinte e que só não os cito por falta de espaço.

Assinado: Pseudônimo.

criado por Emir Ross    13:47 — Arquivado em: Sem categoria

18 de novembro de 2011

Estaremos fazendo

uma instituição nacional que é exclusividade dos brasileiros. Chama-se Estaremos Fazendo. Em outros lugares isso seria compromisso futuro. Aqui, é o tapa furo.


O Estaremos Fazendo é a variante que, para o emissor, significa “tudo bem, para de encher-me” e, para o receptor, “finja que faz e eu finjo que acredito”.

 
O povo tupiniquim é o povo mais generoso do mundo. No Brasil, todos querem cumprir com sua parte. Com a torcida na Copa do Mundo, com um conselho a quem pede informação, com os moradores de rua. Quando alguém bate na casa de um tupiniquim pedindo cinco reais para o leitinho das crianças, este prontamente coloca a mão na carteira e retira uma nota de cinco; como se não bastasse, ao dar as costas ao pedinte, lembra que há uma moeda em seu outro bolso e chama-o de volta. “Ei, fique também com isso!”

Depois, sorridente e coçando a barriga, volta para assistir o Domingão do Faustão. Fala para a mulher “Fiz minha parte”. Se ela questionar sobre o destino daquele dinheiro, que poderia ser a aquisição de drogas, o tupiniquim responde: “Bom, fiz minha parte.” E se ela sugere que o melhor, já que o indivíduo pretendia comprar leite, era dar-lhe uma das quatorze caixas de leite que há na despensa, ele responde: “Bom, a minha parte eu fiz.”, e troca para o Programa Silvio Santos.


Quando um tupiniquim pretende contratar um serviço, como TV por assinatura, ele ouve do outro lado da linha: “É pra já.” Agora, quando ele estiver de saco cheio por este serviço não funcionar nas horas em que ele está em casa para assistir e pedir uma visita técnica a fim de verificar o problema, a resposta é “Estaremos fazendo”. Ele aguardará por alguns dias, ou semanas, essa visita, até irritar-se pelo péssimo serviço e pelo preço exorbitante. Ligará para cancelar a assinatura. Então ouvirá: “Estaremos cancelando”. E, assim, ele “estará fazendo pagamentos” e assistindo o Domingão do Faustão.


Já ouvi falar que o Estaremos Fazendo vem de uma antiga técnica tuaregue para enganar saqueadores. Funcionava assim: ao saberem que seus espaços seriam invadidos, os tuaregues colocavam o que tinham de mais vistoso e barato, ou seja, vagabundo, à vista. Quem saqueava ia levando tudo, e perguntando se não havia nada de mais valioso. “Estaremos fazendo, senhor, mas a temperatura ainda não é adequada.” Quando os saqueadores retornavam, então os tuaregues haviam-se já mudado.


A filosofia também explica o estaremos fazendismo tupiniquim. Nesse caso, acredita-se que os infortúnios acontecem “apesar” de todo esforço e, principalmente, “apesar de eu ter feito minha parte”. Então, “se todos fossem como eu, não haveria fome, prostituição (a não ser de vez em quando) e crianças fora de escola.”


Mas, na minha humilde crença anti-intelectualismo e anti-comportamento-historicamente-adquirido, penso o contrário. Se o tupiniquim encontra dinheiro no chão ele o apanha e guarda, afinal, se não o fizer, outro o fará. Se pescar um peixe proibido, ele o guardará, afinal, melhor ser ele do que outro. Se ele ajeitar a bola com a mão e o juiz não perceber, fará o gol, pois se não fizer certamente o centroavante do time adversário o fará.


Para intervir na instituição do Estaremos Fazendo talvez tenhamos que imigrar para o Japão, ou então para o Guarani, que é o país que morava aqui antes do Brasil chegar. Fora isso, penso que não “estaremos fazendo” nossa parte nem antes, nem durante e nem depois do Domingão do Faustão.

criado por Emir Ross    16:02 — Arquivado em: Sem categoria

29 de outubro de 2011

Mijar

A eliminação de líquidos é uma das faculdades mais importantes do ser humano. Eu diria que isso é até mais importante que Comer, Rezar, Amar.

Essa eliminação pode se dar de duas formas: pelo mijo ou pelo suor. Para a segunda, criamos os desodorantes. Já, para a primeira, ainda não criamos banheiros públicos que funcionem.

 

Não sei o que acontece com os banheiros públicos de Porto Alegre. A maioria está trancada com vários cadeados. Talvez antes, ao invés de serem usados para o mijo, eram usados para o pico; e para a pica. Tudo que prostitutas, usuários de drogas, pixadores e vândalos necessitem para exercer suas funções. Porém, ao invés de terem seus canteiros, arrendaram a custo-zero os lugares destinados à uma das faculdades mais importantes do ser humano.

Sugiro implodir todos os banheiros públicos de Porto Alegre, junto com os cadeados, seringas e camisinhas usadas que descansam ali para fruição dos arqueólogos do século XXXV.

 

Não há razão alguma para não termos, espalhados pela cidade, banheiros públicos que funcionem. Se você preferir, pode até chamar de toalete. Mas não venha me dizer que prefere o cheiro de mijo espalhado pela Borges.

Precisaremos de licitação. Seremos enganados com superfaturamentos. Os locais serão novamente alvo dos grupos supracitados etecétera.

 

Ah, também será criado o imposto do chichi.

 

Eu pago.

Pago um real por ano no meu IPTU para os banheiros serem mantidos limpos, cheirosos, com sabonete líquido, espelhos e papelzinho no mictório iguais aos do Iguatemi.

Para a construção destas obras, a prefeitura que dê um jeito. Não fará cosquinhas no orçamento.

 

O que faz cosquinhas é o chichi da Borges e de outras ruas de Porto Alegre toda manhã no meu nariz, principalmente na primavera, quando esses cheiros se espalham mais fácil, polinizando as blusas Hermes e os sapatos D&G que trafegam poraí, além das árvores da Praça XV, que já dão flores com o perfume de uma das faculdades mais importantes do ser humano, a espalhar-se pela cidade e cair sobre nossos belos cabelos Hugo Beauty.

 

criado por Emir Ross    15:30 — Arquivado em: Sem categoria

9 de setembro de 2011

Desespetáculo

Sou um incapaz. A cada dia descubro uma coisa nova que não consigo fazer. Quando chega setembro, o que mais incomoda é minha incapacidade de acordar cedo para chegar antes na venda de ingressos do Porto Alegre em Cena.

Mas essa é só uma das coisas que não domino. Como também não sei atuar e ainda menos escrever, resta-me a crítica. Afinal, quem não saber fazer, ou critica, ou ensina.

E já que a vida é mesmo uma somatória de falhaços, ensinar é outra coisa que não consigo fazer. Resta contentar-me com os ingressos que sobram do Em Cena para quem acorda tarde. Nesses, vou em todos. E divirto-me.

Existem dezenas de maneiras de se divertir num espetáculo. A melhor delas é quando o espetáculo em si nos enche os olhos prende a atenção. Mas também há outras formas. Eu me divirto muito vendo atores entrando atrasados, cantores engasgando ou coros fora do compasso.

Num desses setembros, vi uma peça chamada Araras e Bananas, que obrigou-me a escrever este texto. Eu não tinha para onde fugir enquanto o desespetáculo acontecia. Passei a prestar atenção nas conversas laterais “Que coisa de amadores”.

Há gente que confunde amadorismo com vontade artística. Eu confundo com relaxamento. Há mais aproveitadores sob o guarda-chuva de artista do que chuchu na serra.

Mas, como sempre falo, em tudo há um lado bom, seja na fila de espera, no exame de próstata e até na política. Se não existissem os fracassados, o que seria dos bons?

O que dizer de “Tiririca, pior que tá não fica”, de “Maluf, eu roubo mas faço”, de “Marronzinho, do presídio à presidência.”

Divirto-me com atores embananados em seus textos. Divirto-me com candidatos arareados em promessas. Mas divirto-me, principalmente, com minha incapacidade de sair do teatro antes que o espetáculo acabe.

Para muitos, essa minha incapacidade pode ser interpretada com uma esperança de que as coisas ainda acabem bem. Porém, para mim, isso é puro relaxamento.

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criado por Emir Ross    16:49 — Arquivado em: Sem categoria

1 de setembro de 2011

Venda

Vendo meu carro. Por uns tostões a mais entrego também a carteira de habilitação. Se o comprador desejar, vendo juntamente meu nome. E, caso haja interessados, poderia oferecer os dentes. Um rim. Ou as coisas que aprendi na última década.

Em Porto Alegre tudo é negociável. Do teste do bafômetro à esposa do melhor amigo. Só há uma coisa que não se pode ter nesta cidade: automóvel. Por isso vendo o meu. Ou troco por um skate.

Aqui, ao se estar ao volante, nada pode ser feito com tranquilidade. Ou afeta-nos o trânsito que insiste em pensar que somos pílulas numa cartela de neosaldina ou afeta-nos o pavor, que insiste em sugerir que o motoqueiro a aproximar-se é um assaltante em potencial.

Eu já tinha neuroses suficientes. Agora, apavoro-me toda vez que me sugerem pegar o carro para ir ao futebol. A combinação automóvel-PortoAlegre já virou epidemia. Os glóbulos de um não aceitam as veias do outro. É só afrouxar o relaxômetro e a Brigada abre mais uma pasta de casos a resolver.

Mas então, quem será doido o suficiente para comprar meu carro? O mesmo sujeito que tiver o santo discernimento de comprar também um rim a fim de estocar no Mãe de Deus para quando algum membro da família vier a necessitar.

O carro custa seguro, combustível, estacionamento, condomínio, manutenção, lavagem, e outras coisas mais que não utilizo. Mas custa, principalmente, tensão, ou o contrário dela. Custa saúde. Houve época em que eu pagava seguro do meu Ford e não sobrava dinheiro para o Plano Fátima. Oficina autorizada para ele, fila do SUS e tapinha nas costas pra mim. No entanto, ratifico aos compradores que meu rim está em perfeito estado de conservação, como podem ver, nunca foi batido, riscado, nem nada, é original de fábrica e tem todos os manuais de nascimento e vacinação. Depois de retirado é só lavar e congelar. Caso for da vontade do cliente, pode mandar avaliar por um médico de sua confiança.

criado por Emir Ross    15:41 — Arquivado em: Sem categoria

17 de agosto de 2011

Mania de bobagem

Gosto de fugir das regras. Contrapor-me ao fluxo. Andar na contramão. Evitar engarrafamentos intelectuais. A regra que mais me persegue hoje é a de que as pessoas, depois de mortas, viram cânones. Transformam-se em intocáveis. Geniais. Solidárias. Inteligentíssimas. Quebradoras de paradigmas.

Este é o paradigma que insisto em tentar quebrar.

Os gaúchos têm mania de falar grandes bobagens, principalmente em se tratando da história e do povo gaúcho ser diferente dos demais.

Eu adoro essas gauchadas. E gosto ainda mais de ouvir essas grandes bobagens. Por isso, não perco um debate sobre o assunto. Quando o Moacyr era vivo, e nem porque morreu vou ficar dizendo que só falava coisas esplêndidas, ele narrou o fato de Getúlio ter amarrado o cavalo no obelisco no dia de sua posse. E enfatizou: “O gaúcho é um povo diferenciado.”

Levantei a mão mentalmente. Interrompi-o de pronto. Também mentalmente.

“Mas e o baiano?”

“Mas e o mineiro?”

“Mas e o pernambucano?”

Como não desenvolvi plenamente minha capacidade telepática, não ouvi a resposta.

Essa mania provinciana de falsa diferenciação deve estar ligada a alguma de nossas deficiências. Nota-se que a gente não se diz diferente dos baianos. Dizemos-nos diferentes do “Resto do Brasil”. Como se o Resto do Brasil fosse nome de algum Estado da Federação.

Óbvio que o gaúcho é diferente.

Assim como o baiano é diferente do Resto do Brasil.

Assim como o povo mineiro é diferente do povo desse Estado supracitado.

As regras sugerem um engarrafamento. E as garrafas estão cada vez mais foscas, embaçadas, anuviadas. É preciso que vocês me ajudem a quebrar os paradigmas. Ou então continuaremos juntando os caquinhos dessa magnânima cacofonia cultural.

criado por Emir Ross    16:13 — Arquivado em: Sem categoria

22 de julho de 2011

Turistas Japoneses no País do Carnaval

Sempre que posso, observo os turistas japoneses. Praticamente os sigo. Eles são a espécie mais engraçada que os japoneses inventaram.

Quando eu era criança, e lá se vai muito tempo, queria ser japonês. Mas não turista. Talvez porque os japoneses não param de inventar coisas. E os turistas japoneses vêem o mundo através de uma Sony. Por isso eu queria ter cabelos negros e lisos; olhos esticados; e usar quimono. E, claro, quebrar tábuas com golpes de caratê.

Os golpes de caratê são a forma mais perfeita do autoconhecimento, que, devido a minha intimidade comigo mesmo, prefiro chamar de auto-conhecimento. Dá-se um golpe e pronto. Acabou o lero-lero.

Ando pensando em sugerir um projeto de lei para meus queridos amigos deputados:

Faixa preta em caratê ser pré-requisito para candidaturas à Assembléia e aos diplomas de engenharia.

Afinal, o que tem-se visto de obras públicas in-acabadas, mal-acabadas ou in-operantes daria para se encher um dojô do tamanho do Japão.

Viadutos e estradas são os campeões.

Quando os políticos não sabem para onde direcionar certas verbas, decidem construir um viaduto. O objetivo não interessa. O que vale é fincar placa, tirar foto e preparar discurso. Político tira mais foto ao lado de placa que patricinha ao lado de ator global. A inauguração de obras é o facebook do mandato. É tanto golpe sem direção que o seu Miyagi mandaria esses cidadãos lava-carro, pinta-parede, lixa-chão por meses a fio.

Eu, como leigo cidadão, escritor sem leitores, que nada entende de engenharia ou cálculos, posso enganar-me facilmente. Mais, inclusive, que falar bobagem.

Mas tenho plena convicção que não é necessário construir um viaduto para ligar o nada ao lugar nenhum.

Assim como tenho a santa compreensão de que as coisas mudam e não podemos construir uma rodovia cujo projeto foi elaborado há quinze anos, depois levou uma eternidade para ser aprovado e acaba obsoleto antes mesmo de entregue à população.

Outro ensinamento do Sr Miyagi: antecipe-se aos golpes.

Mas nossos queridos apenas armam a defesa quando já foram atingidos e o estrago está feito.

Tenho a impressão de que os turistas japoneses não entendem muito de caratê. Mas há algo em seu DNA. Eles estão sempre preparados com as câmeras a postos. Principalmente quando visitam o Brasil:

registram as favelas, obras-primas da arquitetura.

os mendigos, fazendo estupendos monólogos com suas roupas características.

Somos um país com atrativos sem igual. Mas eles registram, principalmente, grandes obras de arte feitas a base de ferro e cimento, espalhadas pelo país. Algumas são cortadas ao meio. Outras, parecem estradas para o céu. Ao final de tudo, talhados à Hollywood, esses turistas japoneses vão para suas casas. Assistem com os amigos e tentam desvendar o que os sensíveis artistas queriam expressar com estas intrigantes instalações espalhadas pelo País do Carnaval.

criado por Emir Ross    17:54 — Arquivado em: Sem categoria

15 de junho de 2011

Anchova

A anchova é a parte mais gostosa do mar

Também gosto do jacaré

Mas só quando a onda não brinca de pega-pega

Porque uma vez ela brincou assim

com o primo Léo

E ele nunca mais comeu anchova.

.

Acho que é por isso que você segura minha mão

Que é para eu não fazer travessura com

a parte do mar que não devolve a gente

pra saborear a sobremesa.

criado por Emir Ross    16:30 — Arquivado em: Sem categoria

6 de junho de 2011

Seu Jorge

Por que não leio mais jornais?

Porque dedico três minutos antes das dez para falar com Seu Jorge, o porteiro. Entre seis e oito da manhã, ele lê os quatro tablóides de Porto Alegre. Às sextas, também dá uma espiada na Folha, que um senhor do sexto andar assina. Mas Seu Jorge não gosta da Folha, é difícil de acomodar por trás do balcão.

Seu Jorge é o último plantão noticioso propriamente dito. Ele sabe de tudo. Da roupa que usamos a mais ao sair à assertividade dos planos para nosso final de semana. Também, só de olhar, sabe o que os candidatos a prefeito dirão antes das campanhas começarem.

Estou cada vez mais convencido sobre a eficácia da Sabedoria da Portaria. É o conhecimento e a informação mais sólida que vem se construindo nas areias do século XXI.

Nessas areias contemporâneas, tudo é desmentido. A verdade absoluta morreu. A ciência ou a amante sempre estão aí pra provar o contrário.

Tudo se desfaz no ar. Desde o melhor time de futebol de todos os tempos a tradicionais teorias sobre meio de vida e alimentação vegana.

No século XXI, nada é o que parece. Ou nada é o que é.

Menos a sabedoria do Seu Jorge.

O Seu Jorge é mais preciso que a previsão do tempo. Porque ele lê os quatro jornais e depois dá uma olhada no céu para ver a movimentação do vento e das nuvens.

O Seu Jorge faz melhores roteiros que a CVC. Pois ele sabe a temperatura em cada cidade da Serra ou Litoral, e dirá se as dicas de gastronomia estarão adequadas para a sexta, o sábado e o domingo.

O Seu Jorge cruza informações.

E depois dá seu parecer ajustado ao que aprendera lá no interior de Getúlio Vargas com seu avô.

Ele nunca erra.

Na minha doutrina de vida, estou a abolir gradativamente os jornais e a inserir cada vez mais a Sabedoria da Portaria. Os papelóides sempre repetem os assuntos. Nas férias, quando não posso levar o Seu Jorge, levo um jornal e leio-o todos os dias como se fosse a primeira vez. Após o ponto final, a sensação é a mesma.

Sensação era o motivo para se ler resenhas, críticas, até anúncios fúnebres. Mas a sensação não existe mais. A opinião escafedeu-se junto com o último jornalista. Depois da preguiça imposta pela instantaneidade, apenas sobreviveram as agências de notícias e as assessorias de imprensa que repassam idêntica informação para todos os veículos.

Por isso, invisto no Seu Jorge e na Sabedoria da Portaria. Ela tem suas vantagens, afinal, não vem pasteurizada, promove a interação social e é bem mais higiênica. Por acaso vocês sabem como é produzido o papel jornal e porque ele deixa aquela cor enegrecida nos nossos dedos depois de alguns minutos de leitura?

criado por Emir Ross    18:25 — Arquivado em: Sem categoria
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