milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

3 de julho de 2013

Adriano

 Adriano, o jogador de futebol, não jogou a carreira fora. Num mundo onde raramente há opções, ele preferiu salvar a vida.

Adriano foi matéria de trabalho da imprensa. Foi matéria de diversão para o público. Foi mão-de-obra para empresários que enxergam cifras onde há carne e osso.

“O imperador”.  Convenceram-no que ele se tratava disso. O destruidor das defesas. Aquele que conquista. Que tem súditos. Mulheres, territórios. Convenceram-no que a grande área era domínio eterno e exclusivo seu.

Também convenceram o público. “Lá vem o imperador”. Deram-lhe louros. Uvas. Vinhos. Massagens. Mansões recheadas de jovens servis. Compuseram-lhe hinos, construíram estátuas, confeccionaram mantos.

O povo precisa de ídolos. Por isso, todo ano, é necessário fabricar mais.

Existem departamentos repletos de especialistas em criar ídolos. Primeiro se escolhe um ser humano, depois se transforma um feito comum num feito notável. Compara-se isso a um mito. Convoca-se a imprensa para disseminar a ideia e está feito o trabalho.

O mortal torna-se eterno. O indivíduo deixa de ser humano para ser outra coisa que desconhecemos o nome.

“O imperador”, disseram.

Mas Adriano, o jogador de futebol, jamais foi “o imperador”.

Adriano, o jogador de futebol, sempre foi “o gladiador”.

Jamais teve um império. Ao contrário disso, sempre trabalhou para um. Cego e servil. Fiel e corajoso.

No dia em que teve a brilhante de ideia de subir o morro e se encontrar com a infância, onde seu coração batia de verdade, onde seus amigos de verdade estavam, falando sua língua e comendo sua comida, pôde o imperador perceber que seu império, na verdade, era construído de papel machê.

Adriano não jogou a carreira fora. O que jogou fora foram as marionetes que o conduziam. Como tantos outros, percebeu que a felicidade está nas coisas simples. Pequenas. A memória afetiva o levou a preferir o churrasco na laje aos coquetéis em Milão. O levou às cervejas retiradas do isopor aos vinhos piemonteses. Preferiu namoricos adolescentes à namoradas que o faziam de trampolim para a Playboy.

Adriano, o filho.

Sou admirador dele. De sua atitude. Preferiu largar todos os rótulos. As cifras e os louros.

Conseguiu.

Talvez eu ainda não consiga me dedicar ao que realmente importa. Nem eu, nem noventa por cento da população. Ainda somos gladiadores querendo governar o império. Cegos, servis e burros. Em busca de algo que não existe. Ainda estamos presos às amarras. Mas um dia chegaremos lá. 

criado por Emir Ross    15:42 — Arquivado em: Sem categoria

17 de junho de 2013

Os patos

O Brasil é o país dos patos. Há uma circular que coleta assinaturas. A intenção é substituir as estrelas da bandeira por patinhos. Todas as esquinas teriam seu estandarte. Para confundir os atiradores. Ao invés de mirarem nos patos a dirigir automóveis, tentariam acertar nos patinhos da bandeira.

Antigamente, os patos migravam conforme a estação do ano. Mas, pelas mudanças climáticas, o máximo que conseguem hoje é locomover-se de uma parte da cidade à outra. Geralmente à noite.

Os caçadores, por sua vez, estão sempre à espreita. Vez em quando, aparecem com motocicletas.

Já houve um representante da Associação de Proteção aos Patos (APP) que sugeriu aos penosos não pararem nos sinais vermelhos após a meia-noite. Assim, deixariam de ser patos fáceis. Mas logo a Associação dos Caçadores (AC) respondeu: “Se não pararem nos sinais vermelhos, serão multados.”

Patos são sensíveis à multas.

Estas costumam ser mais violentas que os projéteis.

Então os patos arriscam. Grande parte vai para a panela.

A panela não é um lugar muito agradável. Mas é a lei da selva.

A selva, por contraponto, tem-se tornado um local cada vez mais civilizado. Há leis para tudo. Menos para os direitos dos patos. Por isso, quem paga o pato nessa história é o próprio pato. Mas isso não é um problema. Eles se multiplicam aos milhares. Sempre haverá deles.

As associações também determinam as leis de conduta para os caçadores. Mas eles geralmente não as obedecem. É a lei da selva. Não há multas que os afetem. Por isso podem usar a munição que lhes apetecer para abater quantos exemplares conseguirem.

É claro que a APP nada pode fazer a esse respeito. Nem mesmo os patos que, apesar de serem em maior número, tem um cérebro pequeno e não conseguem se organizar para tentar acabar com os atiradores. A sua única reivindicação é para se mudar a bandeira do Brasil.

Entretanto, essa é uma medida difícil de ser discutida, quanto mais aprovada.

O que eu penso?

Que se mude a circular. Ao invés de substituir as estrelas da bandeira por patos, que se obrigue os postes a mijar nos cachorros.

 

criado por Emir Ross    15:57 — Arquivado em: Sem categoria

13 de maio de 2013

Relato sobre a teimosia

 

Existe um clube de futebol chamado Mixto. Ele mora em Cuiabá, a cidade mais quente do Brasil. Dizem os bons de garfo que o prato famoso nasceu nesse lugar. Já os bons de língua juram o contrário: garantem que insistir no erro é o melhor sabor que existe.

Houve, certa época, um lateral chamado Hidalgo que jogou no Inter. Era titular da seleção peruana e foi um fiasco no Beira-Rio. Para provar que o rival era o culpado pelas más atuações do jogador, o Grêmio contratou-o. Resultado: Hidalgo foi responsável por várias derrotas até ser dispensado.

Como vingança, tempo depois, o Inter contratou outro lateral. Chamava-se Bustos e era convocado costumeiramente pela seleção da Colômbia. No Grêmio, fora um fracasso. Os dirigentes do Inter, no entanto, tinham a convicção de que o fracasso não era por causa das limitações técnicas do jogador e sim do clube por quem atuava. Fez um longo e caro contrato com ele. Jamais jogou.

Apesar de falarmos em times de futebol, este não é um texto sobre esporte. É um relato sobre a teimosia. Quem tem título de eleitor no Brasil sabe muito bem do que estou falando.

A teimosia é uma dádiva. É o caminho da certeza. O teimoso sempre tem razão. Ele jamais erra. Está sempre indo de encontro aos falhaços.

Mas esta não é uma dádiva exclusiva dos eleitores e dirigentes futebolísticos.

Eu, por exemplo, sou pós-graduado em teimosia. Penso em criar um manifesto. Virar o Marx dos cabeças-duras. Para comprovar minhas convicções, escrevo todos os dias. Empilho opiniões, crio histórias, perco saúde e dinheiro. Dia após dia. Sou um Mixto Quente de contradições.

E por que faço isso?

Pelas mesmas razões que a direção do Internacional contratou Bustos e, a do Grêmio, Hidalgo.

 

 

criado por Emir Ross    11:56 — Arquivado em: Sem categoria

10 de abril de 2013

Darín

Esses tempos jogaram Brasil x Argentina.

Fui ao cinema.

Vi um filme argentino: Elefante Branco.

Era um filme com Ricardo Darín.

Não falarei sobre o filme.

Buenos Aires tem um estoque de setenta e dois Ricardo Daríns.

Ele atua em todos os filmes portenhos. Em “Medianeiras” ele era a medianeira. Para manter a alta rotatividade que os papéis exigem e a complexidade dos personagens, a cada três meses fabricam um novo Darín.

Colocam no almoxarifado.

Quando um quebra, substituem. Quando um está ocupado, mandam o reserva. Há uma equipe especializada em conservação de Daríns.

Lubrificam, trocam órgãos, aceleram a duplicação celular. Já ouvi falar que há um curso de doutorado na ENERC de especialização na reprodução e conservação de Daríns. Dizem.

Eu acho isso ótimo. Os povos precisam aperfeiçoar o que tem de melhor. Se não há bons governantes, que haja bons atores. Nós temos Fernanda Montenegro e Salomé Parísio. Os egípcios não tinham atores, tinham Tutancâmon. A Grécia é o berço da Tragédia e da Comédia. Estamos mais para gregos do que para egípcios. Mas somos pós-modernos. E barrocos. Tudo ao mesmo tempo. Nosso futebol é uma comédia. Nossa política, uma tragédia.

Esses tempos jogaram Brasil x Argentina.

Ainda bem que ainda não começaram a reproduzir Messis. Prefiro que continuem aumentando o estoque de Ricardo Daríns. Setenta e dois é pouco.

O cinema argentino precisa produzir mais. O futebol, bem, seria bom deixar como está.

Quando chegarmos ao centenário de nascimento de Messi e fizerem um filme sobre sua vida, o interprete será Ricardo Darín.

Na tela, ele fará golos mais belos que o próprio Messi. Tudo estará lá. Registrado. Com roteiro e trilha sonora. Pronto para levar os aplausos e as lágrimas das multidões. Tudo estará lá. Afinal, Ricardo Darín, só há um.

 

criado por Emir Ross    10:51 — Arquivado em: Sem categoria

5 de março de 2013

Coisas que odeio

A segunda coisa que mais odeio na vida é ser escritor. A primeira é não ter leitores. Ser escritor é passar o dia sozinho frente a um papel mudo. E passar a noite mudo frente a mulheres que esperam a gente dizer alguma coisa.

Não ter leitores é ainda pior. É ter a certeza que você deixou de comer gostosas durante meses a troco de nada.

Eu não entendo muito de troco. Talvez, se entendesse, minha conta bancária permitiria pagar as gostosas ao invés de perdê-las por falta de assunto.

Este é um dos maiores paradoxos da minha limitada galáxia. Se tenho tanto assunto para encher folhas inúteis, por que não tenho uma linha sequer para despir uma peça de roupa de uma pseudo-modelo.

Não entendo os paradoxos. Por vezes, acho que são iguais aos meus leitores: não existem. Por vezes, penso que são uma teoria da conspiração: estão em todos os lugares, menos onde deveriam.

Mas o dever nada mais é do que algo que inventaram para ser burlado.

Eu, como não tenho deveres, vivo inventando regras. Afinal, só é possível de se quebrar uma regra depois dela existir. Talvez essa venha a ser a quarta coisa que eu mais odeie na vida. A terceira, com certeza, serão as pessoas que conseguem quebrar regras sem ter que inventá-las.

criado por Emir Ross    10:34 — Arquivado em: Sem categoria

14 de fevereiro de 2013

Bento XVI: coragem ou covardia

Ano de 2013. Véspera de Carnaval. Pela internet, rádio, aparelhos de televisão, o assunto não é a roupa das destaques no desfile das escolas de samba, ou a falta dela; o assunto é um tanto mais inusitado. Mas não menos pornográfico. O delírio místico da carne no Carnaval 2013 deixou o Brasil de lado. Veio do Vaticano. Protegidos pelos mistérios da fé e dos muros da Igreja, escondido a sete chaves feito a construção de um carro abre-alas, os foliões responsáveis pela igreja anunciam a renúncia de Bento XVI.

O clérigo canta o samba-enredo: um ato de coragem extrema. O anúncio mexe com a mídia mundial. No lugar das bundas nas caras dos foliões, aparece uma cara sem ânimo, talvez sem expectativas.

As perguntas que se seguem: Estava ele sem fé na humanidade, por isso renunciou? Estava ele com fé de menos em si, por isso renunciou?

A coragem e a covardia são tênues linhas que se confundem. Interagem da mesma foram que o piegas e o emotivo.

Ser líder e porta-voz de uma nação tão grande quanto a católica exige estar pleno de todas as funções físicas e mentais. Alguns acham que é preciso ter bem mais que isso. Para outros, tal cargo exige a falta delas.

Entender uma renúncia, seja ela qual for, compreende investigar o princípio. A operação Muros do Catolicismo tem exibido o protecionismo e as leis próprias que regem a instituição. Leis discutíveis num plano ético, moral e legal. Bento XVI teve que lidar, acima de qualquer outro pontífice, com tais questões. Conseguiu lidar com esse problema à sua maneira. Certo ou errado? Há gente que acredita que os fins justificam os meios. Há gente que não.

As regras do Vaticano, as quais o atual-ex-pontífice seguia, e regia, tinham por base a não-comunicação. O que se faz dentro das paredes sagradas é resolvido dentro das mesmas. Bento XVI foi um árduo defensor da hierarquia, do conservadorismo, do fechismo. Poderíamos dizer que eles vivem um carnaval à parte.

O debate quanto à renúncia, a primeira desde a Idade Média, quando as coisas eram resolvidas à base da espada e da forca, é o mesmo que discute o que é um ato de coragem e o que é um ato de covardia.

O herói é o que morre para salvar o que acredita?

O herói é o que consegue se salvar?

O covarde é aquele que se rende para preservar vidas?

O covarde é aquele que prefere morrer para preservar sua opinião?

No princípio, Joseph Ratzinger era um cardeal chegado no antigo Papa. Era seu consultor. Ou tentava ser. Digamos que um puxava o samba e o outro era mestre de bateria. Joseph Ratzinger virou Bento XVI. Primeiro optou por alterar a direção de abertura da Igreja Católica, pela qual João Paulo II estava trabalhando, por um posicionamento conservador. Digamos que o carro abre-alas mudou.

A pedofilia dos padres católicos não existia antes?

A fé das pessoas diminuiu?

Aumentaram as manifestações, as aglomerações, alguns aceitaram as máscaras impostas. Nunca foram tantos contra as posições da Igreja. Nunca foram tantos a desacreditar na instituição. Mas a Igreja Católica já foi mais fechada e nem por isso esteve tão em baixa. Seria isso tudo culpa de um só homem?

A coragem e a covardia estão presentes em todos os seres humanos. Nasce com a gente. Desenvolve-se conforme a necessidade. Ou a indignação.

Seria um pouco de megalomania acusar um único indivíduo por todos os podres ou louros do mundo. Assim como seria hipócrita afirmar que alguém, com tamanha importância feito um Papa, não tem poderes para tomar decisões que mudariam o rumo da instituição, da política e da fé. A força do Papa não está no homem que ele é. Está na função que exerce. As decisões de um homem enquanto Papa não são dele, são da sua representação.

Joseph Ratzinger tem o direito de ser covarde. Tem todo o direito de não suportar as pressões dentro dos muros do Vaticano e, principalmente, de fora. Tem todo potencial para tornar-se um mito pela coragem de um ato em si.  João Paulo II, seu antecessor, é conclamado santo. E então, o que fazer depois de um santo? A questão aqui não é se Joseph Ratzinger foi corajoso ou covarde. Neste carnaval que é o Vaticano, Joseph Ratzinger não é Joseph Ratzinger. Neste carnaval, ele é o Papa. E, segundo as regras fechadas que só ao Vaticano cabe ditar, este cargo é vitalício.

Vitalício.

Em resumidas contas, cada um reza para o santo em que acredita. Ou desfila com a fantasia que lhe couber.

criado por Emir Ross    10:20 — Arquivado em: Sem categoria

22 de janeiro de 2013

Bundas e ombros

Antigamente os árbitros vestiam preto. Vez em quando, uma camisa amarela. Bem vez em quando. O preto era o símbolo da imparcialidade. Da austeridade. Mas os tempos mudam. Hoje, eles vestem camisa, calção e meias verde-limão, rosa-choque ou outra cor brilhante que aparecer. Fúcsia sempre é uma ótima opção. A mudança na cor foi só o começo. Em suas bundas e ombros vibram marcas de lojas, de equipamentos eletrônicos e de etecétera. É o fim da imparcialidade. Como confiar em alguém que vende suas bundas e ombros para as marcas que pagam mais?

O mundo está mudando. O futebol é apenas o reflexo mais vistoso. Tudo parece à venda. Ou para aluguel. 

Não me será estranho o dia em que a denominação do nosso planeta for licenciada por períodos de tempo. Vejo os repórteres em matérias de telejornais: “A população do Planeta Terra Coca-Cola aumentou em doze por cento no último ano segundo dados revelados hoje.”

Como no mundo das grandes marcas tudo é ação-reação, o concorrente terá de ser criativo: no intervalo do mesmo telejornal, veicula filme de trinta segundos: pessoas num parque ensolarado, passeando felizes. E uma assinatura: “No Planeta Terra Coca-Cola, todos ficam mais felizes quando o Sol Pepsi brilha.”

Mas não é apenas o planeta em que você mora e a estrela que ilumina suas manhãs que terão nomes de grandes marcas. Você poderá ter que alugar seu próprio nome.

No Brasil, a família Silva perderia a hegemonia. Pelo desconto de dez por cento na compra de seu ar condicionado, você se chamará José da Silva Cônsul por dois anos. Mas seu nome não poderá aparecer em fichas sujas. Caso aconteça, o desconto vai pro brejo e a multa é alta.

Nesse caso, não sei se o pior é pagar a multa ou manter o Cônsul no nome. Ainda mais se seu time de futebol alugar o nome para a Eletrolux. “Cônsul torce para o Eletrolux.”. Quando o time perde, o presidente explica: “precisamos dar um choque de ânimo nos jogadores.” É estranho, mas é a vida. Será normal. Estranho seria não aproveitar as oportunidades.

Estas são igual pernas de pirigueti, se abrem a todo momento.

Quando esse dia chegar, e vai chegar, seu animal de estimação também entrará na jogada. Se chamará Motorola por três minutos e você ganhará mil bônus na compra do próximo videofone. Para isso, é só postar uma foto engraçada dele no Motobook.

Nesse aparelho, é proibido parecer menos feliz que os outros redenautas. Mas esse papo não é novidade.

Novidade será daqui a cento e quarenta e sete anos alguém desdizer isso.

Enquanto esse tempo não chega, sintonizo os canais de futebol. Vejo a grama verde e a torcida entusiasmada. E os árbitros alugando bundas e ombros. Mas, o que fazer, melhor nos deles do que no meu.

 

criado por Emir Ross    16:01 — Arquivado em: Sem categoria

20 de dezembro de 2012

A moral

Este foi um ano de eventos. Ou, ano de participar deles. Estive nos primeiros dias do Festipoa Literária. Participei do Salão do Livro de Foz do Iguaçu, Feira do Livro de Porto Alegre, Bienal, Fim do Mundo, Feira do Livro de Buenos Aires. Na verdade, fui para a capital portenha porque descobri uma promoção da Gol. Mas é muito melhor para minha moral dizer fui por causa da Feira.

A moral é aquela coisa que existia há uns anos atrás e que hoje em dia os mais jovens conhecem por facebook. Ela sempre parece melhor do que é. Igual ao site.

É próprio do ser humano a necessidade de mostrar aos outros o quanto se está bem para, de alguma forma, aproximar o sentimento das aparências. É uma teoria simples de compreender. Mas complicada de dizer.

Igualzinho à Feira do Livro de Buenos Aires. Quem está acostumado com a Feira de Porto Alegre e as folhas de árvores misturando-se às capas dos livros, sofre com a limpeza de facebook da feira portenha.

Mas há coisas que precisamos fazer uma vez ao menos na vida. Nem que seja para termos certeza de jamais querer fazer de novo. Como aquele bar que os amigos falam ser demais e a gente precisa ir para comprovar que é ruim. Caso contrário, como saber?

Experimentar é um pouco da essência da vida. No momento em que morre a vontade de experimentar, morre a necessidade de viver. Mas não sou alguém capaz de dar conselhos. Até porque daqui a pouco pode entrar a Camila Pitanga por aquela porta e eu já volto a querer viver de novo.

Este é um texto experimental. Provo vários assuntos. Tão experimental que nem sei como cheguei até aqui. Ah, a Festipoa Literária. No próximo ano, pretendo participar dela mais intensamente. Afinal, não precisarei postar fotos no facebook nem falar que fui para a Feira do Livro de Buenos Aires ou que participei do Fim do Mundo. Talvez não seja bom para minha moral. Mas tudo bem, ela nunca é o que parece.

criado por Emir Ross    15:26 — Arquivado em: Sem categoria

27 de novembro de 2012

Kiss

 Eu não sei quantos anos separam 1998 de 2012. Sou péssimo em números. Mal sei contar um set list.

Mas pra que contar quando se pode aprender a ouvir. A ver. Em 1998, o Kiss trouxe um espetáculo multi-sensorial. Quem sabia contar até ali, desaprendeu. Porque contar não seria mais necessário.

Eu não sei quantos anos separam 1998 de 2012.

O primeiro foi o ano da Copa. O segundo, do copo.

Ao invés de passar domingos vendo futebol, aprendi a beber melhor.

Em 1998, metade dos colegas do curso de Publicidade e Propaganda queria morar em Nova Iorque e trabalhar no World Trade Center. Em 2012, dão graças a Deus pelo fracasso e dão aulas em universidades. Quem não aprendeu a fazer, ensina.

Essa é uma regra milenar. Numa aprendi a fazer, mesmo assim eu faço. Engano bem. Por isso não ensino. As universidades apenas abrem portas para fracassados.

Vez em quando eu uso janelas. Mas somente para sair. Por onde entro não conto.

Sou péssimo em números. Em 1998, Paul Stanley sobrevoou uma plateia enfeitiçada com suas plataformas extraterrestres. Eu ainda tinha vergonha de mijar ao ar livre. E voltava pra casa feliz quando beijava na boca.

Kiss é um meteoro. Passa de quando em quando. Das crateras surge a banda. Da banda surge o monstro psicótico que hipnotiza. O monstro que seca a parte do cérebro responsável pelos números. Mas que evoca a alma, os sentidos, o gênio primitivo dentro de cada um.

Eu não sei contar. Não quero saber. Não importa. Entre 1998 e 2012 nada aconteceu. Einstein estava certo. O tempo dobrou-se. As páginas colaram-se. Psycho Circus e Monster são o elo.

Os elos.

As Torres Gêmeas jamais existiram. Saddam Hussein também não. E o Grêmio continua sendo o único clube gaúcho Bicampeão da América e Campeão do Mundo.

Talvez algum dia provem que Einstein estava errado. E que o Meteoro Kiss jamais dobrou o tempo.

Espero não estar vivo para saber disso.

criado por Emir Ross    13:45 — Arquivado em: Sem categoria

12 de novembro de 2012

Outubro

 

Em outubro sempre acontecem duas coisas.

Um: sou demitido.

Dois: faço aniversário.

 

Outubro sempre é especial. É o mês do começo da Feira do Livro de Porto Alegre. É o mês que antecede ao atraso nas contas. À criatividade para encontrar presentes de final de ano por preços módicos. De preferência negativos. Se souberem de alguém que pague para eu retirar presentes, topo.

 

Já decidi. Dei-me mais um ano. Vou fazer exatamente o mesmo. Vou arranjar trabalho. Alguma coisa que pague a luz, o plano de saúde e o condomínio. Escrever não dá dinheiro. Só preciso pagar luz, plano de saúde e condomínio. Supermercado não precisa. Inscrevi-me no Medida Certa do Fantástico.

 

Dei-me mais um ano. Se outubro do ano que vem chegar e, novamente, eu for demitido e fizer aniversário, tomo uma decisão definitiva.

Viro vagabundo profissional.

E exigirei salário.

Farei um projeto de lei.

Vagabundo precisa virar profissão.

De preferência com carteira assinada.

Quero INSS. Férias. Décimo terceiro. Décimo quarto e quinto. Horários flexíveis. Ser vagabundo não é fácil. Tenho visto.

Mas estou decidido. É meu futuro. Escrever não dá dinheiro. Ter emprego não dá dinheiro. Não tenho coluna nos tabloides de Porto Alegre. Vou esperar mais um ano. Em dois de janeiro procuro ocupação. Quando for demitido, em outubro do ano vem, alguns dias antes do meu aniversário, assumo meu novo cargo. Empregador adora demitir antes do aniversário das pessoas. Economiza com o presente. Nunca ganhei presente.

Vou virar vagabundo profissional.

Até lá, quem tiver um jornal, ou uma coluna vaga, me avise.

 

criado por Emir Ross    10:53 — Arquivado em: Sem categoria
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