1 de julho de 2009
Lançamentos
Não entendo porque as pessoas gostam tanto de lançamentos. As pessoas deleitam-se com lançamentos. Vivem para lançamentos. Conheço uma que só vai ao cinema na estréia. Só compra livro em sessão de autógrafo e só vai a show se for o primeiro da turnê.
É, praticamente, como se só transasse na noite de núpcias. Há-de se fazer um estudo por essa predileção do ser humano.
Eu já estou começando a concordar com vocês todos que me acham um E.T, pois prefiro experimentar as coisas com mais calma. Dar tempo às coisas. E a mim mesmo. Para ser mais exato, prefiro coisas mais experimentadas; coisas que se possa degustar mais intimamente.
Tudo, em minha vida, é experimentado. Ou seja, velho. Minha mãe é mais velha que eu. Meu apartamento é mais velho que eu. Até minha irmã mais nova é mais velha que eu. A maioria de minhas namoradas foi mais velha que eu.
Agora, contudo, tenho experimentado mulheres mais jovens. Confesso: entendo parte dessas pessoas que preferem os lançamentos.
No entanto, tenho o leve pressentimento que essas meninas são uma cópia de minha personalidade ou, então, estudantes de paleontologia disfarçadas.
Porém, essa é minha única pré-disposição a diversões novas.
No último Festival de Cinema de Gramado, uma dessas pessoas que só transam na noite de núpcias tentou convencer-me a dar-lhe uma carona à cidade serrana:
“Mas, pra que ir lá?”
“Para ver os filmes, ora.”
“Filmes eu vejo aqui.”
“Lá é melhor.”
Disse-lhe então que lá era pior. Aglomeração. Empurra-empurra. Gente que se acha famosa. Aglomeração. Restaurantes lotados. Gente que se acha bonita. Empurra-empurra. Flashes. Penas voando por todos os cantos. Gente que se acha gente.
“Mas lá nós vemos antes de todos.”
Era o que eu queria ouvir. Não gosto de ver as coisas antes. Não quero fazer as coisas antes. Não quero nada que os outros não tenham feito, visto ou comido. Talvez eu tenha sido, em outra vida, um provador de comidas de um rei inescrupuloso. Gosto de ouvir as opiniões dos outros para depois fazer o contrário.
Essa pessoa que me convidou ao Festival, por exemplo, quando me diz que determinado filme, livro ou banda de rock é bom eu nem me preocupo em conhecer, já posso sair falando mal, pois tenho certeza de que é péssimo.
Geralmente, tudo que é lançamento é inútil. Se não for inútil, com certeza sobreviverá por gerações. Daí, segundo a lógica, deixa de ser novidade.
Quem gosta de coisas que sobrevivem, gosta, por consequência, de coisas boas.
Na minha idade, não há mais tempo para errar: seja com livros, pratos, bandas ou mulheres.
Por isso, vou na direção contrária. Na anti-moda. Frequento apenas lugares com músicas que gosto e pessoas que entendam um bocadinho, pelo menos, sobre a Pérsia ou Edgar Alan Poe.
É muito melhor que passar a noite com loiras esculturais sem conseguir contar-lhes uma piada que entendam. Embora elas, geralmente, tenham um enorme potencial de aprendizado.
criado por Emir Ross
18:12 — Arquivado em: 
