milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

7 de maio de 2012

O maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos

Um amigo me disse que não se faz literatura sem público, pois a literatura só é literatura quando dialoga com os leitores.

Eu sou o maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos. Depois explico.

 

Estive em Buenos Aires para a Feira do Livro. De Buenos Aires, no caso. Jurei que não iria para comprar livros e sim para freqüentar as mesas de debates. Enganei-me, comprei alguns. Mas participei das conversas. Em meio a tanta programação que brotava de salas e palcos e esquinas, parei no Diálogo de Escritores Latinoamericanos. Vários dias e várias mesas discutindo o que se fazia no continente de língua espanhola. Eles têm maior facilidade de diálogo e troca de experiências. Assim como troca de obras. A língua aproxima. Mas, para os autores brasileiros, é uma barreira. A mesma que surge entre eu e minhas publicações.

Os debates desse Diálogo giravam em torno dos novos. E a base para se saber quem são os novos eram os nomes que a Revista Granta publicava cada vez em quando. A Granta recebe inscrições e depois elege os vinte ou trinta futuros grandes escritores em cada língua. Também fizeram a versão portuguesa. A partir de então, a lista entra nos catálogos de mais procurados e por aí vai.

Não me inscrevi. É uma das razões pelas quais continuarei um escritor sem obra.

 

Meu primeiro prêmio literário veio em 1993. Eu tinha dezessete anos. De lá pra cá, recebi praticamente todos os importantes prêmios literários nacionais. Para escritores sem obra. Para aqueles que devem inscrever-se sob pseudônimo. Até 2009 eu contabilizava cerca de vinte prêmios. Parei de contar após esse número. Certamente hoje passa dos trinta. Repito, são prêmios importantes, reconhecidos e muito disputados.

Ao chegar da Feira de Buenos Aires, uma notícia no meu email.

Fui o primeiro colocado no Prêmio Cataratas de Contos, de Foz do Iguaçu. Era um dos poucos que eu não havia recebido ainda.

 

Mas não escrevo aqui para mostrar como sou foda. Escrevo para dizer que não me inscrevi na escolha da Revista Granta. Escrevo para dizer que editora alguma ainda aceitou me publicar. Embora eu tenha mandado originais para diversas. Embora os críticos tenham me conferido cerca de trinta importantes premiações. Claro, eu inscrevia-me sob pseudônimo. Eu sou um escritor sem leitores. Um escritor sem obra.

 

Daqui a cem anos serei motivo de estudo. Algum historiador descobrirá meus originais em arquivos perdidos e fará o que fizeram com Qorpo Santo.

O título: o maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos.

Serei eu.

Espero que editor algum leia este texto. Ele pode acabar com o meu futuro. Assim como acabaria com a grande descoberta de um anônimo e louco historiador do século XXII.

 

criado por Emir Ross    10:24 — Arquivado em: Sem categoria

19 de abril de 2012

Ler

Parei de ler. Aderi à moda das Brasileirinhas. Desisti dos livros. Dedico avidamente meus neurônios a filmes sem história.

Ninguém gosta de histórias. A multidão quer as entranhas, o gozo, os acidentes, o Big Brother.

 

Eu sou a multidão. Vendi meus livros à quilo na Voluntários. Guardei alguns para usar na lareira. O inverno em Porto Alegre tem alguns dias frios.

Parei de ler. Ganhei espaço na estante. Pretendo comprar coisas bonitas para colocar no lugar.

A multidão não tem tempo. Livros são demorados. Os filmes das Brasileirinhas duram doze minutos. Igual ao livro do Paulo Coelho. Ou seriam onze? Ainda não descobri se a gente leva esse tempo para lê-lo ou para desistir. Parei de ler. Mas talvez eu ainda leia esse livro do Paulo Coelho.

 

Dedico avidamente meus neurônios a filmes sem história. Tenho transado mais. Não ler me faz conversar melhor em baladas. Na verdade, ninguém escuta o que se fala nas baladas. Mas as tenho freqüentado. Desisti também dos shows cover de Bob Dylan, Pink Floyd e Jethro Tull nas quintas. Ninguém transa depois desses shows. Mas a multidão transa antes, durante e depois dos filmes das Brasileirinhas e das baladas.

Eu sou a multidão. Parei de ler.

Ganhei dinheiro com a venda de meus quilos de livros. Comprei a cerveja que desce redondo. Agora falta comprar uma coisa bonita para colocar na estante.

Uma coisa moderna.

Virei moderno. Vou a baladas. Nesses lugares não é preciso conversar.

 

Aderi à moda das Brasileirinhas e vou comprar uma coisa da moda para minha estante.

Parei de ler. Vou andar na moda. Mesmo que isso me faça andar em círculos ou ficar eternamente tentando morder meu próprio rabo. Parei de ler. Em breve, vou parar de escrever.

criado por Emir Ross    11:21 — Arquivado em: Sem categoria

5 de abril de 2012

The Wall: o dia seguinte

É a quarta vez que assisto a um concerto do Roger Waters. A segunda vez que vejo The Wall. E ainda não descobri o que se faz no dia seguinte.

Os dias seguintes são os mais óbvios e os mais difíceis de se definir. Os shows de Roger Waters são como um drible do Garrincha. Todo mundo sabe o que ele vai fazer. Mas assim como os zagueiros não conseguiam segurar a bola, a gente não consegue segurar as lágrimas.

Eu gosto das lágrimas. Ainda não inventaram forma mais eficaz de se lavar a alma. As lágrimas derramadas em The Wall não são qualquer tipo de banho. São como um banho de sais, em águas termais, com direito a massagens de ninfas.

Não sei como a alma se sente no dia seguinte. É uma sensação estranha. Num momento ela parece ali, entranhada na carne. Em outro, é como se ela tivesse tirado o dia para voar no Atacama e já voltasse. Talvez seja por isso que ficamos assim, meio que sem saber se o chão onde pisamos é firme ou também foi ao Atacama dar uma volta.

Eu não sei onde é o Atacama. Na verdade, não sei sequer onde estou.

Há horas que fico pensando nas pessoas.

O que estarão elas falando?

Eu não quero falar sobre isso. Não há o que dizer. Depois de um show do Roger Waters, gosto de ficar parado. Com os olhos abertos. São as únicas vezes na vida que consigo meditar. O ar entra e sai, entra e sai, entra e sai. Diferente das pessoas, que apenas saem. Diferente de mim. Cuja alma foi passear e não disse quando retornaria.

O retorno do The Wall, de volta pra casa, também é um momento ímpar. A gente vai pra casa. Mas não está exatamente indo pra casa. Estamos indo para algum lugar. Estamos mais leves e mais cheios. E continuamos sem querer falar com ninguém. Sem ouvir. Sem pensar. Porque não há nada mais para ser pensado.

Talvez o dia seguinte seja apenas mais uma sequência deste estado a que The Wall nos leva. Ou talvez ele não exista. Tenha ido dar uma volta ao Atacama junto com nossa alma e com o chão que a gente pisa.

Espero que continuem por lá.

criado por Emir Ross    11:36 — Arquivado em: Sem categoria

26 de março de 2012

A noite

 

Quando a noite fecha as cortinas

é porque

ela tem coisas para nos contar.

 

É por isso que a gente dorme.

 

Para deixar a noite sussurrar

seus segredos

para nossos sonhos.

 

criado por Emir Ross    16:59 — Arquivado em: Sem categoria

19 de março de 2012

Conversas com mamãe

Tenho evitado as conversas com minha mãe. Ultimamente temos exercitado essa comunicação basicamente em seus telefonemas. Antes de perguntar como estou, ela insiste em saber o que estou fazendo. Digo que estou escrevendo.

“E vai trabalhar quando, meu filho?”

Gosto de falar com minha mãe. Assim como gosto de falar com outras pessoas que avaliam a escrita como um não-trabalho. Tento entender as outras pessoas. Mas, com minha mãe, não sei se faço o mesmo esforço. Mamãe é uma mulher à moda antiga. Acha um absurdo, por exemplo, que eu cozinhe para minha namorada. Mas gosta quando ela lava a louça. Ambos gostamos.

Cozinhar me dá prazer. Principalmente quando faço para as namoradas, se é que me entendem. Por isso, fiz um curso rápido de culinária. Mamãe ligou. Disse-lhe que as aulas serviriam para eu ser chef.

“Ah, que bom meu filho, que bom.”

Possivelmente ela não entendeu que o tipo de chef que eu seria era um tipo de chef que mandava apenas nas panelas. Mas ela não precisa saber desses detalhes. Estudo há trinta anos para fazer um trabalho que não é trabalho e para dar ordens a um monte de panelas que queimam meus dedos.

O mundo insiste em não entender certas coisas. Eu mesmo ainda não entendo por que escolhi esse caminho. Tenho um trabalho que não dá dinheiro e subordinados que soltam vapor pelas ventas.

Talvez a explicação esteja mesmo nas ventas. Eu dificilmente esquento a cabeça. Afinal, as pessoas apenas se estressam por trabalho, dinheiro ou cônjuges. Como não tenho nenhum deles, vivo em paz.

Estou pensando, inclusive, em telefonar para minha mãe.

“Mãe, sou eu, estou feliz, na santa paz de Deus.”

Essa informação sobre estar feliz e em paz certamente ligará outro ponto na cabeça dela.

“Quem bom, arranjou um emprego, meu filho, que bom.”

criado por Emir Ross    11:52 — Arquivado em: Sem categoria

1 de fevereiro de 2012

Fórum Social Mundial

Já houve um tempo que eu sentia vontade atropelar o pessoal que carregava faixas, pintava o rosto e atrasava em meia hora minha rotininha bem mais ou menos. Eles se dirigiam ao anfiteatro Pôr-do-sol. Eu ia para casa.

Houve outro tempo em que me juntava a amigos legais e distribuía adesivos criativos e nonsense para o público que falava várias línguas no trajeto para a Usina do Gasômetro.

Em tempo, passei noites em claro curtindo shows e brindando no Acampamento da Juventude. E fui virado ver, pela primeira e única vez na vida, o José Saramago pessoalmente quando ele ainda era meu escritor preferido.

Não sei se houve vários Fóruns ou se o Fórum sempre foi o mesmo. Nesse caso, eu é que fui vários conforme corria o tempo.

Mas não escrevo para saudar a realização do FSM. E menos ainda para suscitar minha possível mudança de olhar.

Escrevo para inventar um verbo.

Quero importantizar a opinião.

Seja ela qual for. De onde vier. Não quero julgá-la. Somente destacar a vital importância da opinião.

Não sei se a maconha deve ser legalizada ou não. Se Cesare Batisti é culpado ou inocente. Se Gilberto Gil é melhor como ministro ou como compositor.

O que importa não é o que é melhor ou pior. Certo ou errado.

Depois de mais de dez anos de Fórum Social Mundial, consegui finalmente descobrir que a essência está em podermos vivenciar todos os lados. E termos acesso a todas opiniões. Somente dessa forma, poderemos forma a nossa própria.

Afinal, já houve um tempo em que as estradas tinham uma mão apenas.

criado por Emir Ross    10:16 — Arquivado em: Sem categoria

17 de janeiro de 2012

Meu dom

Sou dotado da excitante capacidade de confundir mosquito com buzina. Seria um dom exótico, se eu fosse rico. Como sou pobre, o dom é rebaixado para estranho. E vocês devem achar engraçado, por consequência.

Para mim, nada é engraçado. Minha orelha que o diga.

 

Meu dom tem hora marcada para se manifestar. E é quando estou naquele estado que parece acordado mas já estou dormindo, tipo assim, como depois do orgasmo, sabem? Então, nesse estágio do sono, se um carro buzinar ali na rua, automaticamente eu me auto-bofeteio. Na orelha.

 

Dói.

 

Essa confusão é a maior causa da minha insônia. Já rendeu uma dezena de histórias mal escritas e umas quatro demissões. De empregos também mal escritos.

Essa talvez seja a única vantagem.

O contrário também acontece. Às vezes, quando estou acordado e ouço aquele som meio-buzina meio-mosquito, fico na minha, tentando poupar-me da bofetada no ouvido. Então, passo o dia com a orelha vermelha, coçando. Vocês já devem imaginar. Com toda sorte que tenho, por certo essa é a vez que um mosquito levará meu sangue e minha paciência.

 

Paciência, por sinal, é algo deficitário hoje em dia. Eu não me preocupo com isso, pois paciência pra mim é igual a dinheiro: logo chega um espertinho e leva.

Melhor não se preocupar. Mas tem gente que se preocupa. Para eles, paciência é uma obsessão; perdem a vida tentando encontrá-la, em ritmo frenético e alucinante.

Gastam o tempo e o dinheiro que obtem a duras custas para encontrar a paciência que perdem ganhando dinheiro.

Os locais para se encontrar a paciência tendem a ser em divãs, encontros budistas e puteiros. No caminho, geralmente três motoboys são atropelados e diversos sinais vermelhos ultrapassados para não se chegar em atraso. Como se a paciência e as putas fossem fugir caso o retardo for superior ao tempo em que o semáforo está fechado.

 

Eu, como ainda não aprendi a diferenciar mosquitos de buzinas, não me preocupo com o tempo. Afinal, ele é só uma medida que inventaram para nos dizer que lá no Japão já é amanhã.

Seja como for, podem crer, o problema disso tudo começa e termina na orelha. Ouviram?

 

criado por Emir Ross    18:15 — Arquivado em: Sem categoria

5 de dezembro de 2011

Pseudônimo dois pontos

Dois mil e onze está por acabar.

E quanto mais o tempo passa, mas o paradoxo dos nomes me faz crescer um centímetro de orelha.

O nome é algo tão importante que não deveria ser escolhido pelos pais. Eu mesmo já troquei o meu meia dúzia de vezes. Ainda não acertei.

 

Mesmo assim, dois mil e onze está por acabar. E vejam só o que meu nome realizou.

Fiz prova para o mestrado: desclassificado.

Enviei projeto para o Fumproarte: não contemplado.

Mandei originais para editoras: sem resposta.

 

Nada estava dando certo para Emir Ross em dois mil e onze. Sempre que associava meu nome a algum projeto, concorrência ou afins a resposta já era esperada. Negativa, por óbvio.

Decidi participar então de prêmios literários onde o nome não é lá tão importante. Na verdade, nesses prêmios, ele é proibido. E como a aprovação do meu não era bem-vinda nesses outros processos, já foi meio caminho andado.

 

Usei pseudônimo.

E quando se usa pseudônimo, a escolha é feita às escuras pelos jurados. Ninguém sabe quem está concorrendo. E eis o que veio: 5 importantes prêmios.

Primeiro lugar no Prêmio Internacional de Contos de Araçatuba.

Primeiro lugar no Prêmio Felippe d´ Oliveira de Contos, de Santa Maria.

Segundo lugar no Prêmio José Candido de Carvalho de Contos, de Campos.

Terceiro lugar no Prêmio Felippe d´ Oliveira de Crônicas, de Santa Maria.

Menção Honrosa no Prêmio Claudionor Ribeiro de Contos, do Espírito Santo.

 

Essas situações fizeram-me pensar em mudar de nome. Mais uma vez. Abandonar aquela denominação proibida e maldita em qualquer divulgação de resultado e adotar de vez o nome Pseudônimo Dois Pontos.

Não sei se isso será bom.

O que sei é que choverão importantes editoras querendo publicar meus originais.

As universidades farão fila para me terem em seus doutorados antes mesmo de concluir um mestrado.

Os Fundos de Apoio à Cultura mandarão propostas de aprovação já assinadas eu simplesmente aceitar.

Como disse, brotarão mudanças. Possibilidades garantidas.

 

Enquanto os cartórios analisam minha requisição, continuarei a usar meu registro de batismo. Claro, seguirei nesse período sem ganhar prêmios onde o nome dos vencedores é mais importante que as obras. Mas com várias possibilidades de receber os prêmios onde os textos é que são importantes. Como disse, recebi cinco nesse ano, para juntarem-se aos demais que já somam mais de vinte e que só não os cito por falta de espaço.

Assinado: Pseudônimo.

criado por Emir Ross    13:47 — Arquivado em: Sem categoria

18 de novembro de 2011

Estaremos fazendo

uma instituição nacional que é exclusividade dos brasileiros. Chama-se Estaremos Fazendo. Em outros lugares isso seria compromisso futuro. Aqui, é o tapa furo.


O Estaremos Fazendo é a variante que, para o emissor, significa “tudo bem, para de encher-me” e, para o receptor, “finja que faz e eu finjo que acredito”.

 
O povo tupiniquim é o povo mais generoso do mundo. No Brasil, todos querem cumprir com sua parte. Com a torcida na Copa do Mundo, com um conselho a quem pede informação, com os moradores de rua. Quando alguém bate na casa de um tupiniquim pedindo cinco reais para o leitinho das crianças, este prontamente coloca a mão na carteira e retira uma nota de cinco; como se não bastasse, ao dar as costas ao pedinte, lembra que há uma moeda em seu outro bolso e chama-o de volta. “Ei, fique também com isso!”

Depois, sorridente e coçando a barriga, volta para assistir o Domingão do Faustão. Fala para a mulher “Fiz minha parte”. Se ela questionar sobre o destino daquele dinheiro, que poderia ser a aquisição de drogas, o tupiniquim responde: “Bom, fiz minha parte.” E se ela sugere que o melhor, já que o indivíduo pretendia comprar leite, era dar-lhe uma das quatorze caixas de leite que há na despensa, ele responde: “Bom, a minha parte eu fiz.”, e troca para o Programa Silvio Santos.


Quando um tupiniquim pretende contratar um serviço, como TV por assinatura, ele ouve do outro lado da linha: “É pra já.” Agora, quando ele estiver de saco cheio por este serviço não funcionar nas horas em que ele está em casa para assistir e pedir uma visita técnica a fim de verificar o problema, a resposta é “Estaremos fazendo”. Ele aguardará por alguns dias, ou semanas, essa visita, até irritar-se pelo péssimo serviço e pelo preço exorbitante. Ligará para cancelar a assinatura. Então ouvirá: “Estaremos cancelando”. E, assim, ele “estará fazendo pagamentos” e assistindo o Domingão do Faustão.


Já ouvi falar que o Estaremos Fazendo vem de uma antiga técnica tuaregue para enganar saqueadores. Funcionava assim: ao saberem que seus espaços seriam invadidos, os tuaregues colocavam o que tinham de mais vistoso e barato, ou seja, vagabundo, à vista. Quem saqueava ia levando tudo, e perguntando se não havia nada de mais valioso. “Estaremos fazendo, senhor, mas a temperatura ainda não é adequada.” Quando os saqueadores retornavam, então os tuaregues haviam-se já mudado.


A filosofia também explica o estaremos fazendismo tupiniquim. Nesse caso, acredita-se que os infortúnios acontecem “apesar” de todo esforço e, principalmente, “apesar de eu ter feito minha parte”. Então, “se todos fossem como eu, não haveria fome, prostituição (a não ser de vez em quando) e crianças fora de escola.”


Mas, na minha humilde crença anti-intelectualismo e anti-comportamento-historicamente-adquirido, penso o contrário. Se o tupiniquim encontra dinheiro no chão ele o apanha e guarda, afinal, se não o fizer, outro o fará. Se pescar um peixe proibido, ele o guardará, afinal, melhor ser ele do que outro. Se ele ajeitar a bola com a mão e o juiz não perceber, fará o gol, pois se não fizer certamente o centroavante do time adversário o fará.


Para intervir na instituição do Estaremos Fazendo talvez tenhamos que imigrar para o Japão, ou então para o Guarani, que é o país que morava aqui antes do Brasil chegar. Fora isso, penso que não “estaremos fazendo” nossa parte nem antes, nem durante e nem depois do Domingão do Faustão.

criado por Emir Ross    16:02 — Arquivado em: Sem categoria

29 de outubro de 2011

Mijar

A eliminação de líquidos é uma das faculdades mais importantes do ser humano. Eu diria que isso é até mais importante que Comer, Rezar, Amar.

Essa eliminação pode se dar de duas formas: pelo mijo ou pelo suor. Para a segunda, criamos os desodorantes. Já, para a primeira, ainda não criamos banheiros públicos que funcionem.

 

Não sei o que acontece com os banheiros públicos de Porto Alegre. A maioria está trancada com vários cadeados. Talvez antes, ao invés de serem usados para o mijo, eram usados para o pico; e para a pica. Tudo que prostitutas, usuários de drogas, pixadores e vândalos necessitem para exercer suas funções. Porém, ao invés de terem seus canteiros, arrendaram a custo-zero os lugares destinados à uma das faculdades mais importantes do ser humano.

Sugiro implodir todos os banheiros públicos de Porto Alegre, junto com os cadeados, seringas e camisinhas usadas que descansam ali para fruição dos arqueólogos do século XXXV.

 

Não há razão alguma para não termos, espalhados pela cidade, banheiros públicos que funcionem. Se você preferir, pode até chamar de toalete. Mas não venha me dizer que prefere o cheiro de mijo espalhado pela Borges.

Precisaremos de licitação. Seremos enganados com superfaturamentos. Os locais serão novamente alvo dos grupos supracitados etecétera.

 

Ah, também será criado o imposto do chichi.

 

Eu pago.

Pago um real por ano no meu IPTU para os banheiros serem mantidos limpos, cheirosos, com sabonete líquido, espelhos e papelzinho no mictório iguais aos do Iguatemi.

Para a construção destas obras, a prefeitura que dê um jeito. Não fará cosquinhas no orçamento.

 

O que faz cosquinhas é o chichi da Borges e de outras ruas de Porto Alegre toda manhã no meu nariz, principalmente na primavera, quando esses cheiros se espalham mais fácil, polinizando as blusas Hermes e os sapatos D&G que trafegam poraí, além das árvores da Praça XV, que já dão flores com o perfume de uma das faculdades mais importantes do ser humano, a espalhar-se pela cidade e cair sobre nossos belos cabelos Hugo Beauty.

 

criado por Emir Ross    15:30 — Arquivado em: Sem categoria
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