Sofro de um problema psíquico. Temo, como a morte, chegar a uma cidade e não encontrar lixeiras. Eu andei pela Bolívia faz pouco. Adorei os bolivianos e as bolivianas. Pessoas maravilhosas. Mas o país, ah o país: passei quatorze dias procurando por uma lixeira.
Já cansei de ouvir que de onde a gente menos espera, é daí que nada sai. Ou então que quando achamos que algo ruim vai acontecer, isso inevitavelmente acontece.
Na Bolívia, até parece maldição do Che; a falta de lixeiras estende-se à falta de qualquer coisa que aconteça como tem de ser.
Nestes dias, no entanto, em que ônibus não saíam; em que passei horas sentado no meio-fio; em que os hotéis não tinham água quente à noite,
eu encontrava várias coisas agradáveis.
Mas só vou contar uma delas. A última.
Eu estava em Uyuni. Uma cidade que tem um Salar, um deserto que leva nome de pintor famoso, umas lagoas povoadas por algas com águas coloridas e que também não tem lixeiras.
Uyuni fica a dez horas de estrada de chão de qualquer lugar.
Meu vôo de volta para o Brasil saía na segunda pela madrugada, quatro horas, da cidade de Santa Cruz de la Sierra. Fazia eu minhas últimas compras (licor de coca, luva e gorro de lã de alpaca, CDs).
Dois dias antes havia comprado uma passagem de avião de Uyuni a Santa Cruz. Ora que no domingo passo à frente da ‘oficina’ que me vendera a passagem e encontro uma folha fixada na porta com a mensagem mais ou menos assim:
“…o vôo 093 que sairia neste domingo sairá na terça-feira”
Havia um número de telefone para informações que ninguém atendia.
Procurei a polícia. Há-há-há.
Voltei meia hora depois e percebi que a porta estava aberta (da oficina).
Resumindo: o vôo não saíra por falta de combustível. Entenderam? Falta de combustível. Além da cidade não ter lixeiras, naquele dia também não tinha combustível para o avião.
Tive que remarcar meu outro vôo e etc. No fim, devolveram-me os 135 dólares da passagem mas riram quando exigi que me reembolsassem do valor a mais que tive de pagar na remarcação da minha passagem Santa Cruz-Brasil e solicitei um hotel e alimentação.
135 dólares e chau.
Dia seguinte: dez horas de estrada de chão a Potosi.
Noite do dia seguinte: morto de cansaço.
Mas depois começa a coisa boa. A falta de combustível no avião proporcionou-me passar três horas em Sucre (saí de Potosi a Sucre, onde peguei um vôo para Santa Cruz).
É a cidade mais linda da Bolívia. Museus, restaurantes, praças, lixeiras. Sim, há lixeiras em Sucre e eu estava com saudade delas. Deliciei-me colocando uma garrafa pet num recipiente apropriado para tal fim. Coloquei bem devagar, aproveitando cada centímetro daquele ato. No fim, foi praticamente um orgasmo; quase beijei a lixeira e cochilei abraçado nela.
Peguei o vôo e cheguei a Santa Cruz cedinho. Fui ao Centro: outra coisa que não faria se não tivesse perdido aquele vôo. Se vocês, como eu, acham que Santa Cruz é uma cidade passagem, parem.
Visitem a praça central: se quiserem podem até dormir nela. Ou então, façam o que eu fiz. Vão à Casa Lorca, bebam um café olhando o pôr-do-sol no relógio da igreja e acompanhem o movimento de fim de tarde na praça. Peçam para o pessoal do bar guardar suas mochilas e caminhem pelo Centro (há um comércio muito rico). Depois, voltem à Casa Lorca. À noite sempre há um show musical (na minha noite tocou blues). Jantem. Bebam. Conversem com qualquer pessoa que sentirem vontade e deixem o tempo passar.
E torçam para que, no dia seguinte, aconteça uma coisa ruim que mude seus planos. Ela, com certeza, estará reservando várias surpresas agradáveis, como cidades com lixeiras.