milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

29 de fevereiro de 2008

Sem título

A cabeça só doía quando eu abria os olhos.
E, quando respirava, as costelas criavam órbitas e enfiavam-se na carne como agulhas, pois queriam enxergar o lado de fora.
Já não sentia os pés, por isso não me importava em movimentá-los nem em receber pisões, que deixavam marcas de sapatos de todos os tamanhos.
Só mexia os dedos das mãos de vez em quando, porque ao levantar o indicador o sangue queimava-me os pulsos.
O estômago não doía, mas reclamava em urros, ouvidos à distância, que me separava de tudo.
Em meu peito o coração também doía, porém essa dor era diferente.
Era uma dor de perda.
Uma dor de angústia.
Uma dor que procurava esconder-se, pois sentia vergonha das outras dores que apenas a carne massacravam.

criado por Emir Ross    11:49 — Arquivado em: Sem categoria

28 de fevereiro de 2008

A felicidade e José Saramago

Ontem, vi na Globonews a reprise de uma entrevista que o Edney Silvestre fez com o José Saramago. O Saramago é incrível, embora suas palavras, enquanto as fala, não confiram tanta credibilidade.
Mas quem hoje em dia preocupa-se com credibilidade. O que ele fala é ainda mais bonito do que escreve. Embora menos genial.
Saramago publicou o primeiro sucesso, Memorial do Convento, aos 60 anos de idade. Trabalhou a maior parte da vida como mecânico. Algo um pouco distante da literatura. Comentou que, hoje, não saberia consertar um carro, porque ele já não é o mesmo, mas, principalmente, porque os carros já não são os mesmos. Felizmente, para nós, depois que ele começou a escrever, a literatura também não é a mesma.

O que mais chamou-me atenção foi o fato de Saramago dizer que o Prêmio Nobel que recebera não tinha grande importância na sua vida. Era um grande prêmio, mas comparado à grandeza do universo, isso era muito pequeno. Quando o recebeu, em seu discurso, disse que o homem mais sábio que conhecera fora o avô, que não sabia ler nem escrever.
Segundo o escritor, a infância foi a principal parte da sua vida: a parte em que ele a sentiu mais intensamente. José Saramago nasceu e passou os primeiros anos em Azinhaga, uma aldeia em Portugal, até mudar-se para Lisboa com a família; mas nas férias, sempre voltava para a terra natal, onde tirava os sapatos e encontrava os (verdadeiros) amigos, a sua gente. Só para lembrar, nos anos em que o único escritor de língua portuguesa a ganhar o Nobel, José Saramago, sentiu a vida roçar sua pele na forma mais completa, ele era pobre, filho de camponeses e nada conhecia do mundo além do lugar onde vivia.

Talvez esta seja a principal lição. Quanto menos conhecemos as coisas, mais estamos próximos da felicidade.

criado por Emir Ross    12:06 — Arquivado em: Sem categoria

25 de fevereiro de 2008

Minhas batatas por uma lixeira

Sofro de um problema psíquico. Temo, como a morte, chegar a uma cidade e não encontrar lixeiras. Eu andei pela Bolívia faz pouco. Adorei os bolivianos e as bolivianas. Pessoas maravilhosas. Mas o país, ah o país: passei quatorze dias procurando por uma lixeira.

Já cansei de ouvir que de onde a gente menos espera, é daí que nada sai. Ou então que quando achamos que algo ruim vai acontecer, isso inevitavelmente acontece.
Na Bolívia, até parece maldição do Che; a falta de lixeiras estende-se à falta de qualquer coisa que aconteça como tem de ser.
Nestes dias, no entanto, em que ônibus não saíam; em que passei horas sentado no meio-fio; em que os hotéis não tinham água quente à noite,
eu encontrava várias coisas agradáveis.
Mas só vou contar uma delas. A última.

Eu estava em Uyuni. Uma cidade que tem um Salar, um deserto que leva nome de pintor famoso, umas lagoas povoadas por algas com águas coloridas e que também não tem lixeiras.
Uyuni fica a dez horas de estrada de chão de qualquer lugar.
Meu vôo de volta para o Brasil saía na segunda pela madrugada, quatro horas, da cidade de Santa Cruz de la Sierra. Fazia eu minhas últimas compras (licor de coca, luva e gorro de lã de alpaca, CDs).
Dois dias antes havia comprado uma passagem de avião de Uyuni a Santa Cruz. Ora que no domingo passo à frente da ‘oficina’ que me vendera a passagem e encontro uma folha fixada na porta com a mensagem mais ou menos assim:
“…o vôo 093 que sairia neste domingo sairá na terça-feira”
Havia um número de telefone para informações que ninguém atendia.
Procurei a polícia. Há-há-há.
Voltei meia hora depois e percebi que a porta estava aberta (da oficina).
Resumindo: o vôo não saíra por falta de combustível. Entenderam? Falta de combustível. Além da cidade não ter lixeiras, naquele dia também não tinha combustível para o avião.
Tive que remarcar meu outro vôo e etc. No fim, devolveram-me os 135 dólares da passagem mas riram quando exigi que me reembolsassem do valor a mais que tive de pagar na remarcação da minha passagem Santa Cruz-Brasil e solicitei um hotel e alimentação.
135 dólares e chau.
Dia seguinte: dez horas de estrada de chão a Potosi.
Noite do dia seguinte: morto de cansaço.

Mas depois começa a coisa boa. A falta de combustível no avião proporcionou-me passar três horas em Sucre (saí de Potosi a Sucre, onde peguei um vôo para Santa Cruz).
É a cidade mais linda da Bolívia. Museus, restaurantes, praças, lixeiras. Sim, há lixeiras em Sucre e eu estava com saudade delas. Deliciei-me colocando uma garrafa pet num recipiente apropriado para tal fim. Coloquei bem devagar, aproveitando cada centímetro daquele ato. No fim, foi praticamente um orgasmo; quase beijei a lixeira e cochilei abraçado nela.

Peguei o vôo e cheguei a Santa Cruz cedinho. Fui ao Centro: outra coisa que não faria se não tivesse perdido aquele vôo. Se vocês, como eu, acham que Santa Cruz é uma cidade passagem, parem.
Visitem a praça central: se quiserem podem até dormir nela. Ou então, façam o que eu fiz. Vão à Casa Lorca, bebam um café olhando o pôr-do-sol no relógio da igreja e acompanhem o movimento de fim de tarde na praça. Peçam para o pessoal do bar guardar suas mochilas e caminhem pelo Centro (há um comércio muito rico). Depois, voltem à Casa Lorca. À noite sempre há um show musical (na minha noite tocou blues). Jantem. Bebam. Conversem com qualquer pessoa que sentirem vontade e deixem o tempo passar.

E torçam para que, no dia seguinte, aconteça uma coisa ruim que mude seus planos. Ela, com certeza, estará reservando várias surpresas agradáveis, como cidades com lixeiras.

criado por Emir Ross    16:27 — Arquivado em: Sem categoria

21 de fevereiro de 2008

A garota dos meus sonhos, o que Malamud quer dizer

Mais uma vez Bernard Malamud faz uma incursão ao seu subúrbio de personagens, retratando a periferia da miséria humana.

Neste conto, o personagem principal (Mitka), que vive em situação caótica, coloca no livro em que escrevera toda a expectativa em torno de sua vida.
Como seu passado era algo que nada lhe trazia de benéfico e seu futuro era nada promissor, prendia-se ao livro.
Mas o livro também lhe era algo dúbio. Decide queimá-lo. Assim Mitka vive até começar a se corresponder via correio com uma garota, que dá nome ao texto.

Malamud consegue retratar muito bem os personagens, assim como aquilo que os une: a solidão.

Os personagens transbordam essa solidão, assim como seu isolamento. E a falta de perspectivas é o que torna tudo mais angustiante.
O conto é sufocante, nos aperta a garganta.

Mitka está em constante conflito. Talvez o maior seja consigo mesmo ao tentar dizer-se que não é um fracassado:
Primeiro, através de um livro, que aparentemente para nada serve.

Quando fica sabendo que o romance de Madeleine (a garota) é queimado, percebe-se uma dor estranha nele. Passa a viver a perda da garota, que depois descobriria ser ficção.
Também conflita-se com a possibilidade de encontrar a garota das correspondências. Dá-se um embate entre os dois, até que decidem ver-se pessoalmente.
Então Mitka entende que sua angústia, seu enorme fracasso pode não ser tão grande.

O autor pode ter tido a intenção de nos mostrar que sempre há uma tragédia maior e que, por mais que estejamos na miséria, há sempre uma miséria maior.

Porém, ao analisarmos certos detalhes, percebemos excessos, como é o caso do personagem Beatrice (a garota que mora no edifício de Mitka e que escreve propaganda). Ela está sobrando no texto e pode criar uma confusão no leitor, confundindo-a com a garota das correspondências.
Outro aspecto que também confunde é a forma como foi queimado o romance de Madeleine. Em certos momentos pode-se pensar que o romance que a senhoria queima é o de Mitka.

O argumento poderia ser classificado como um clichê; como se o autor nos quisesse dar uma lição de moral. No entanto, a forma com que o texto é conduzido transforma o argumento simples num conto rico e cheio de possibilidades.

Este conto está no livro “O Barril Mágico”.

criado por Emir Ross    12:14 — Arquivado em: Sem categoria

20 de fevereiro de 2008

Cinco mil metros de ‘atitude’

Eu já havia criado uns cinco, ou seis, ou sete blogs. Talvez mais. O problema é que eu sempre esquecia os endereços. Agora tomei uma ‘altitude’.

Estava num deserto na Bolívia. Cerca de 5 mil metros acima do nível do mar. Era noite. Decidi sair para andar um pouco e sofrer com o frio de menos dez. Para minha felicidade, não havia energia elétrica, então, quando olhei para cima, vi uma explosão de estrelas; e percebi que jamais esqueceria o endereço de meu próximo blog. Afinal, sempre que isso acontecer, basta olhar para o céu

"Whatd you ever say today when youre in the milky way
Oh tell me please
-just to give you a squeeze
If I met you - I told you what to do
Seems a while
Since I could smile the way you do…"

ou lembrar Syd Barret.

criado por Emir Ross    17:22 — Arquivado em: Sem categoria
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://milkyway.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.