21 de fevereiro de 2008
A garota dos meus sonhos, o que Malamud quer dizer
Mais uma vez Bernard Malamud faz uma incursão ao seu subúrbio de personagens, retratando a periferia da miséria humana.
Neste conto, o personagem principal (Mitka), que vive em situação caótica, coloca no livro em que escrevera toda a expectativa em torno de sua vida.
Como seu passado era algo que nada lhe trazia de benéfico e seu futuro era nada promissor, prendia-se ao livro.
Mas o livro também lhe era algo dúbio. Decide queimá-lo. Assim Mitka vive até começar a se corresponder via correio com uma garota, que dá nome ao texto.
Malamud consegue retratar muito bem os personagens, assim como aquilo que os une: a solidão.
Os personagens transbordam essa solidão, assim como seu isolamento. E a falta de perspectivas é o que torna tudo mais angustiante.
O conto é sufocante, nos aperta a garganta.
Mitka está em constante conflito. Talvez o maior seja consigo mesmo ao tentar dizer-se que não é um fracassado:
Primeiro, através de um livro, que aparentemente para nada serve.
Quando fica sabendo que o romance de Madeleine (a garota) é queimado, percebe-se uma dor estranha nele. Passa a viver a perda da garota, que depois descobriria ser ficção.
Também conflita-se com a possibilidade de encontrar a garota das correspondências. Dá-se um embate entre os dois, até que decidem ver-se pessoalmente.
Então Mitka entende que sua angústia, seu enorme fracasso pode não ser tão grande.
O autor pode ter tido a intenção de nos mostrar que sempre há uma tragédia maior e que, por mais que estejamos na miséria, há sempre uma miséria maior.
Porém, ao analisarmos certos detalhes, percebemos excessos, como é o caso do personagem Beatrice (a garota que mora no edifício de Mitka e que escreve propaganda). Ela está sobrando no texto e pode criar uma confusão no leitor, confundindo-a com a garota das correspondências.
Outro aspecto que também confunde é a forma como foi queimado o romance de Madeleine. Em certos momentos pode-se pensar que o romance que a senhoria queima é o de Mitka.
O argumento poderia ser classificado como um clichê; como se o autor nos quisesse dar uma lição de moral. No entanto, a forma com que o texto é conduzido transforma o argumento simples num conto rico e cheio de possibilidades.
Este conto está no livro “O Barril Mágico”.
criado por Emir Ross
12:14 — Arquivado em: 

Comentário por Marli — 21 de fevereiro de 2008 @ 18:39
Eba!
Estava passando da hora de você trazer para o ciberespaço seu talento com as palavras. Gostei da iniciativa. Quanto ao conto, qual o limite entre a ficção e a realidade? Às vezes, tudo se mescla, não é mesmo? BJ
Comentário por Leo — 24 de fevereiro de 2008 @ 18:35
Emir,
Muito boa a tua crÃtica. É bom que existam blogs bem escritos sobre literatura. O que lemos é tão interessante quanto quem somos. Vou incluir este livro que indicaste na minha lista de próximas leituras.
Um abraço,
Leo
Comentário por Cris — 24 de fevereiro de 2008 @ 21:14
Oi Emir!
Vou te linkar.
Eu também amei os contos do Barril Mágico. E se tu não tem leitura na fila, recomendo O Faz-Tudo, do Malamud.Ótimo ótimo ótimo.
Bjs