25 de fevereiro de 2008
Minhas batatas por uma lixeira
Sofro de um problema psíquico. Temo, como a morte, chegar a uma cidade e não encontrar lixeiras. Eu andei pela Bolívia faz pouco. Adorei os bolivianos e as bolivianas. Pessoas maravilhosas. Mas o país, ah o país: passei quatorze dias procurando por uma lixeira.
Já cansei de ouvir que de onde a gente menos espera, é daí que nada sai. Ou então que quando achamos que algo ruim vai acontecer, isso inevitavelmente acontece.
Na Bolívia, até parece maldição do Che; a falta de lixeiras estende-se à falta de qualquer coisa que aconteça como tem de ser.
Nestes dias, no entanto, em que ônibus não saíam; em que passei horas sentado no meio-fio; em que os hotéis não tinham água quente à noite,
eu encontrava várias coisas agradáveis.
Mas só vou contar uma delas. A última.
Eu estava em Uyuni. Uma cidade que tem um Salar, um deserto que leva nome de pintor famoso, umas lagoas povoadas por algas com águas coloridas e que também não tem lixeiras.
Uyuni fica a dez horas de estrada de chão de qualquer lugar.
Meu vôo de volta para o Brasil saía na segunda pela madrugada, quatro horas, da cidade de Santa Cruz de la Sierra. Fazia eu minhas últimas compras (licor de coca, luva e gorro de lã de alpaca, CDs).
Dois dias antes havia comprado uma passagem de avião de Uyuni a Santa Cruz. Ora que no domingo passo à frente da ‘oficina’ que me vendera a passagem e encontro uma folha fixada na porta com a mensagem mais ou menos assim:
“…o vôo 093 que sairia neste domingo sairá na terça-feira”
Havia um número de telefone para informações que ninguém atendia.
Procurei a polícia. Há-há-há.
Voltei meia hora depois e percebi que a porta estava aberta (da oficina).
Resumindo: o vôo não saíra por falta de combustível. Entenderam? Falta de combustível. Além da cidade não ter lixeiras, naquele dia também não tinha combustível para o avião.
Tive que remarcar meu outro vôo e etc. No fim, devolveram-me os 135 dólares da passagem mas riram quando exigi que me reembolsassem do valor a mais que tive de pagar na remarcação da minha passagem Santa Cruz-Brasil e solicitei um hotel e alimentação.
135 dólares e chau.
Dia seguinte: dez horas de estrada de chão a Potosi.
Noite do dia seguinte: morto de cansaço.
Mas depois começa a coisa boa. A falta de combustível no avião proporcionou-me passar três horas em Sucre (saí de Potosi a Sucre, onde peguei um vôo para Santa Cruz).
É a cidade mais linda da Bolívia. Museus, restaurantes, praças, lixeiras. Sim, há lixeiras em Sucre e eu estava com saudade delas. Deliciei-me colocando uma garrafa pet num recipiente apropriado para tal fim. Coloquei bem devagar, aproveitando cada centímetro daquele ato. No fim, foi praticamente um orgasmo; quase beijei a lixeira e cochilei abraçado nela.
Peguei o vôo e cheguei a Santa Cruz cedinho. Fui ao Centro: outra coisa que não faria se não tivesse perdido aquele vôo. Se vocês, como eu, acham que Santa Cruz é uma cidade passagem, parem.
Visitem a praça central: se quiserem podem até dormir nela. Ou então, façam o que eu fiz. Vão à Casa Lorca, bebam um café olhando o pôr-do-sol no relógio da igreja e acompanhem o movimento de fim de tarde na praça. Peçam para o pessoal do bar guardar suas mochilas e caminhem pelo Centro (há um comércio muito rico). Depois, voltem à Casa Lorca. À noite sempre há um show musical (na minha noite tocou blues). Jantem. Bebam. Conversem com qualquer pessoa que sentirem vontade e deixem o tempo passar.
E torçam para que, no dia seguinte, aconteça uma coisa ruim que mude seus planos. Ela, com certeza, estará reservando várias surpresas agradáveis, como cidades com lixeiras.
criado por Emir Ross
16:27 — Arquivado em: 

Comentário por Luciana Kaross — 29 de fevereiro de 2008 @ 17:01
Eu também gosto de lixeiras. MAs não essas que parecem uma cesta de arame. Gosto das que não importunam a timidez de meus objetos descartados. Das que não devassam a intimidade dos meus dejetos…
Ainda essa semana, instalam uma lata de lixo coisa mais fofa na minha parada de ônibus. Ela é cor de laranja e arredondada… Eu seria capaz de amá-la, não fosse pelo motorista do ônibus que insiste em parar na frente dela como se ela fosse subir…