milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

26 de março de 2008

Aos Cisnes

Existem dois escritores porto-alegrenses que admiro muito. Chamam-se Nelson Rego e Daniela Langer (não sei porque insiste em chamar-se Daniela Langer, se Dani Langer já diz tudo). Nelson e Dani são notáveis, possuem estilos próprios e.

Bom, esses dias senti uma vontade muito grande de comer os dois.
Foi o que fiz.
Depois vomitei uma mistura muito estranha.

Surgiu em mim um autor que escreveu este texto aí abaixo:
seria mais ou menos assim se a Dani Langer tivesse tido a idéia de escrever o conto “2222 cisnes brincando de locomotivas e vagões”, de autoria do Nelson Rego.

‘Aos Cisnes

"Está vontadeando?” perguntou ela enquanto dormia eu. “Vontadearei se vontadeares.”, respondi eu enquanto sussurrava ela. Aproximou sua cintura da minha cintura seu braço do meu braço sua bunda do meu quadril quase ardeirando as condições do momento e não importava se a hora madrugadeava ou não. E foi porque dormi tarde, porque dormimos tarde que então acordei com o último sonho em mente, sim porque acordei menteando um sonho. Um sonho com cisnes fileando na neblina sobre um lago. Mas não era o Lago dos Cisnes. Era o Lago de Outra Coisa Não Cisne. Tu os chamava e eles respondiam com passos obedientes de sonho. “Está vontadeando?”, perguntou de novo rosteando-me. “Sim, desde sempre.” Mas ela não queria saber de quando era, queria saber de agora. Espiraleado, fui. Iniciei a corrida na curva interna de seu pé. Parei no sinal amarelo da sua voz. Fiquei por instantes estacionado, parecia que isso era felicidade. “Por que tempeias a vida?” perguntou desaflita. “Agora vontadeei”, respondi desarticulado. Suavizou meu nariz com seus lábios de nem aí. E percorreu o resto do meu corpo estacionado em si até a manhã, até sentir que não queria contar o tempo do perfume misturado de nossas bocas atemporais.’

criado por Emir Ross    16:36 — Arquivado em: Sem categoria

18 de março de 2008

A gata

A gata deveria ser adotada.
Mas como? Uma gata adulta. A gata tinha listras. E não tinha bebês.
No escuro, eram dois faróis. Na claridade, uma gata.
Joguei-a janela afora. E, lá embaixo, ela caiu de pé. Era tão alta minha janela que seus quatro pés cravaram-se no solo.

Meu quintal ganhou uma gata de jardim e, meu gnomo, uma namorada. Mas só de dia; de noite, eram dois faróis luminosos que ninguém queria adotar.

criado por Emir Ross    14:42 — Arquivado em: Sem categoria

10 de março de 2008

O sexo e o polonês

Sou amante de histórias bizarras. Principalmente as reais. Gosto de “Um artista da fome”, do Kafka, ele é real, embora não tenha acontecido. Gosto do “Joseph Klimber”, embora não saiba o nome do autor.
Mas sou amante mesmo, é das histórias bizarras que envolvem sexo. Principalmente as reais. Não canso de repetir.
Esses dias, em Londres, um homem foi demitido por ter sido pego fazendo sexo na sala de jantar de empregados de um hospital infantil.
Com um aspirador.

Não sei de quando vinha o romance deles. Porém, a paixão do polonês que trabalhava como mestre de obras na Inglaterra pelo ‘amante’ foi algo tão intenso que não pôde ser contido e o ato foi praticado lá no trabalho mesmo, no fim do expediente. É meio estranho uma pessoa se apaixonar por um aspirador. Não sei se o objeto faz coisas que uma mulher não possa fazer.
Embora eu já tenha visto pessoas transarem com bicicletas, melancias, garrafas, bifes, essa história do aspirador chamou-me atenção.
Estaria o aspirador ligado?
Em que potência?
Quem estava por cima?
Talvez quem pudesse responder isso fosse o segurança do centro clínico de Great Ormond, que pediu ao homem para limpar-se e fazer o mesmo com utensílio antes de sair. Antes de ver a cena, ele se surpreendera porque o homem "gritava mais forte do que o aspirador".

Acredito que as perguntas acima tenham sido feitas ao polonês apaixonado, mas ele não respondeu, disse apenas que estava "aspirando suas cuecas" e que isto era uma prática habitual na Polônia, sua terra natal.

Por isso que sou amante das histórias bizarras. Principalmente das que tem um final completamente em aberto.

criado por Emir Ross    10:34 — Arquivado em: Sem categoria

7 de março de 2008

Alicia*

, primeiro lhe digo que, se não a amasse, não me teria com ela casado. Também ouso agora dizer que a amo ainda. Por tudo que para mim representou e por tudo que em meu interior causou. Mentiria agora se dissesse eu que as erupções que tão mal causaram-me ao estômago também me foram benéficas na somatória final. E digo tudo de coração aberto e a sangrar, assim como repito que tudo que fiz e tudo que aconteceu foi por amor.

Obrigo-me a explicitar que foi por amar-me que a conheci. Depois disso, o amor que por mim sentia eu, esvaiu-se. Apenas um amor cabia em mim. E era por ela.

Não pense que estou a fantasiar ou que queira eu cambiar sua maneira de ver as coisas ou que me queira eu transformar num romântico. E não pense que o que direi é simples e muda de pessoa para pessoa. Pois quando busquei eu sexo por sexo, consegui-o. Mas, para meu bem, naquele momento, ou para meu delírio, segundo a vossa visão, acabei por conseguir muito mais que isso.

Eis que Alicia sempre fora puta. Era essa sua vocação. E vocação muito bem exercida por sempre. Talvez tão boa puta fosse que, por assim ser, a levei para morar comigo. Mas não queria eu a puta Alicia. Queria sim a doce e profunda menina que morava em seu interior. Por favor, entenda-me. Não era ela puta. Era ela, simplesmente, Alicia. Tímida e de nobres gestos que contrastavam com sua origem humilde. Alicia. Cálida e companheira. Talvez a quisesse para sempre a envolver-me. Um fogo aberto a espalhar-se sobre minha sossegada pele. Alicia inundava-me. Sempre fora a mesma puta de quando a conheci quando era a hora de ser. Alicia amava-me, compreende? E sempre fizera de tudo para termos uma vida melhor. Quem sabe se tivéssemos uma casa só nossa as coisas pudessem ter sido diferentes.

Se eu não a amasse, não me teria com ela casado, entende?

Os doutores da cabeça é que começaram a perturbar nossos tempos. Falavam comigo. Falavam com ela. Mas por que não falavam com nós dois juntos, hein? Diga-me! Sei o que me diziam. Mas nunca soube o que com ela confabulavam. A minha Alicia jamais conseguiria explicar o que se passava por dentro das portas fechadas.

Eu esperava lá fora, doutor. Esperava lá, sozinho. Sem saber nem imaginar o que estariam fazendo com Alicia.

Isso causa ódio no corpo de um homem. Ainda mais se esse homem é homem e é macho e por demais gosta de sua mulher. E, então, diga-me, senhor. Como me estaria eu sentindo com isso tudo, ainda mais a saber que minha mulher puta era, e ainda mais a saber que aqueles doutores da cabeça também sabiam que minha Alicia puta era. O que faziam eles com ela, hein? Diga-me o que faziam com minha Alicia enquanto eu esperava. E, diga-me, por que tinham estes doutores da cabeça que vir a falar com a gente, senhor.

Eu amava minha Alicia. Se não a amasse, com ela não me teria casado.

Sou homem, doutor. E homem bem macho. E o que faz um homem bem macho ao ver sua Alicia com outros trancada? Chora? Claro que não fui-me a chorar, senhor doutor. E o que pensa o senhor que pensavam os outros que disso vinham a saber? É ruim. Coisa por demais ruim.

Saía eu na rua e nas calçadas com minha mulher que era puta e que todos sabiam. Mas também sabiam todos que era ela minha mulher e, só por isso, deixava de ser puta. Apontavam eles o dedo. Apontavam pra mim, não pra ela. Ah, senhor, se pra ela apontassem esses o dedo, não sobrava carne em cima de osso porque nessas horas a gente vira macho, quer dizer, macho sou, viro urso, viro touro, viro cavalo e viro todos os bichos que existem no mundo, um mais brabo que o outro.

Entende, senhor juiz, o quanto fizeram estes médicos da cabeça mal pra minha Alicia? Se tivesse ficado ela guardada dentro de casa, sempre a me esperar que eu chegasse, não teria nada de nada acontecido. Entende que o lugar dela não era nem naquela sala fechada fazendo só Deus sabe que judiação e nem na rua com muitas mil pessoas a lhe olhar os dotes. Minha Alicia devia de ser minha e de na minha casa ficar. Sempre.

Minha Alicia, depois de um tempo, doutor, não mais falava comigo, doutor. Minha Alicia quase que nem mais abria a boca, a coitadinha. Primeiro não mais abria a boca pra falar e foi ficando sempre mais calada que até muda parecia. Depois a boca nem se abria nem para rir, nem para mostrar os dentes como faz um cavalo quando está furioso, mas a minha Alicia nunca ficava furiosa, nem ficava nem nervosa, nem braba, mas nem assim mostrava os dentes brancos a pequenina, minha mulherzinha. E depois de nem abrir a boca pra falar e nem abrir a boca pra rir, nem mais abria a boca para respirar mais fundo quando estava eu em cima dela e depois nem mais abria a boca pra engolir o que queria eu que ela engolisse, doutor. E, por fim, tudo por culpa desses médicos da cabeça que se trancavam com ela lá dentro daquela sala só eles, que minha Alicia nem para comer abria mais a boca. E a boca dela ficou-se para sempre fechada e cerrada e trancafiada que parecia é que tinham nela passado cola. Mas não uma cola fraca não, que tem aqui nestes armazéns, é uma cola muito boa que só tem no estrangeiro e cola tudo, até boca de gente e acho que colou a boca da minha Alicia doutor, que não abriu mais.

Eu a amava, doutor e a via lá daquele jeito, a coitadinha. Se não a amasse não me teria com ela casado.

E a informação que tenho é essa e a informação que tem o senhor é diferente da minha que eu sei, e não precisa o senhor me dizer. Mas diga-me o senhor o que disser, não vai me mudar o pensamento. E se não disser o senhor nada também, não precisa dizer, pois nada mudará. Estarei de noite, hoje, em casa com minha Alicia. A última noite hoje com a coitadinha. E se não abrisse mais a boca a minha Alicia, doutor, não seria então mais ela a minha Alicia. Tinha de tentar querê-la, entende? Mesmo que assim ficasse e assim ficou. A Alicia seria a minha Alicia ou não seria, então, nenhuma Alicia. E foi que ela não foi. A coitadinha não abriu a boca mais. Minha última tentativa não deu certo. Mas não me olhe com pena, senhor doutor juiz. Eu não quero ser olhado por ninguém mais assim hoje. Hoje só quero em casa ir. Posso ir em casa hoje né, senhor doutor? Amanhã a Alicia vai embora e então praqui eu volto. Se fechou já a Alicia para sempre. Não só a boca, mas toda ela tá já fechada. Não é mais ela não quem está lá. Mas finjo que estarei a vê-la. Pelo menos não estará a cheirar até amanhã. A beleza da coitadinha saberei ouvir com os pensamentos, já que a Alicia fechou-se. Amanhã eu volto sim, deixe-me passar lá esta noite, pois se não a amasse, não me teria com ela casado

 

*conto de Emir Ross, publicado no livro Inventário das Delicadezas

criado por Emir Ross    11:30 — Arquivado em: Sem categoria

4 de março de 2008

Nunca mande sua mulher para um pscinalista

Sempre pensei que Jordán era o assassino de Alicia, com cumplicidade de sua família. Para mim, eram eles o parasita escondido, que a sugavam em “O travesseiro de penas”, conto de Horacio Quiroga.
Depois de ler Quiroga e Houellebecq, que comentarei a seguir, e alguns de meus textos, que eu e mais três pessoas já leram, reafirmo que o amor tende a ser a mais letal das armas.
O travesseiro, usado por Quiroga, é um símbolo de amor, de entrega. E provinha dele a desgraça de Alicia. Morrera por amar. Talvez por ser amada.

O Charles (Kiefer) desafiou-me certa vez a escrever um conto depois de uma leitura do “O travesseiro de penas”. Devia ter um outro ponto de vista.
Escrevi.
Sob outro ponto de vista, mas escancarrando o assassino.

Surgiu “Alicia”, conto que está publicado no livro Inventário das Delicadezas e que será meu próximo post.
Faz pouco, tive contato com “A extensão do domínio da luta”, romance do Michel Houellebecq, que cito esta frase:
“Uma mulher que cai nas mãos dos psicanalistas torna-se, definitivamente, imprópria a qualquer uso, conforme, muitas vezes, constatei.”

Escrevo isso para mim mesmo, e para os outros três leitores de Alicia.
Ah, se ela estivesse viva.

criado por Emir Ross    15:18 — Arquivado em: Sem categoria
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Am I a spambot? yes definately
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