7 de março de 2008
Alicia*
, primeiro lhe digo que, se não a amasse, não me teria com ela casado. Também ouso agora dizer que a amo ainda. Por tudo que para mim representou e por tudo que em meu interior causou. Mentiria agora se dissesse eu que as erupções que tão mal causaram-me ao estômago também me foram benéficas na somatória final. E digo tudo de coração aberto e a sangrar, assim como repito que tudo que fiz e tudo que aconteceu foi por amor.
Obrigo-me a explicitar que foi por amar-me que a conheci. Depois disso, o amor que por mim sentia eu, esvaiu-se. Apenas um amor cabia em mim. E era por ela.
Não pense que estou a fantasiar ou que queira eu cambiar sua maneira de ver as coisas ou que me queira eu transformar num romântico. E não pense que o que direi é simples e muda de pessoa para pessoa. Pois quando busquei eu sexo por sexo, consegui-o. Mas, para meu bem, naquele momento, ou para meu delírio, segundo a vossa visão, acabei por conseguir muito mais que isso.
Eis que Alicia sempre fora puta. Era essa sua vocação. E vocação muito bem exercida por sempre. Talvez tão boa puta fosse que, por assim ser, a levei para morar comigo. Mas não queria eu a puta Alicia. Queria sim a doce e profunda menina que morava em seu interior. Por favor, entenda-me. Não era ela puta. Era ela, simplesmente, Alicia. Tímida e de nobres gestos que contrastavam com sua origem humilde. Alicia. Cálida e companheira. Talvez a quisesse para sempre a envolver-me. Um fogo aberto a espalhar-se sobre minha sossegada pele. Alicia inundava-me. Sempre fora a mesma puta de quando a conheci quando era a hora de ser. Alicia amava-me, compreende? E sempre fizera de tudo para termos uma vida melhor. Quem sabe se tivéssemos uma casa só nossa as coisas pudessem ter sido diferentes.
Se eu não a amasse, não me teria com ela casado, entende?
Os doutores da cabeça é que começaram a perturbar nossos tempos. Falavam comigo. Falavam com ela. Mas por que não falavam com nós dois juntos, hein? Diga-me! Sei o que me diziam. Mas nunca soube o que com ela confabulavam. A minha Alicia jamais conseguiria explicar o que se passava por dentro das portas fechadas.
Eu esperava lá fora, doutor. Esperava lá, sozinho. Sem saber nem imaginar o que estariam fazendo com Alicia.
Isso causa ódio no corpo de um homem. Ainda mais se esse homem é homem e é macho e por demais gosta de sua mulher. E, então, diga-me, senhor. Como me estaria eu sentindo com isso tudo, ainda mais a saber que minha mulher puta era, e ainda mais a saber que aqueles doutores da cabeça também sabiam que minha Alicia puta era. O que faziam eles com ela, hein? Diga-me o que faziam com minha Alicia enquanto eu esperava. E, diga-me, por que tinham estes doutores da cabeça que vir a falar com a gente, senhor.
Eu amava minha Alicia. Se não a amasse, com ela não me teria casado.
Sou homem, doutor. E homem bem macho. E o que faz um homem bem macho ao ver sua Alicia com outros trancada? Chora? Claro que não fui-me a chorar, senhor doutor. E o que pensa o senhor que pensavam os outros que disso vinham a saber? É ruim. Coisa por demais ruim.
Saía eu na rua e nas calçadas com minha mulher que era puta e que todos sabiam. Mas também sabiam todos que era ela minha mulher e, só por isso, deixava de ser puta. Apontavam eles o dedo. Apontavam pra mim, não pra ela. Ah, senhor, se pra ela apontassem esses o dedo, não sobrava carne em cima de osso porque nessas horas a gente vira macho, quer dizer, macho sou, viro urso, viro touro, viro cavalo e viro todos os bichos que existem no mundo, um mais brabo que o outro.
Entende, senhor juiz, o quanto fizeram estes médicos da cabeça mal pra minha Alicia? Se tivesse ficado ela guardada dentro de casa, sempre a me esperar que eu chegasse, não teria nada de nada acontecido. Entende que o lugar dela não era nem naquela sala fechada fazendo só Deus sabe que judiação e nem na rua com muitas mil pessoas a lhe olhar os dotes. Minha Alicia devia de ser minha e de na minha casa ficar. Sempre.
Minha Alicia, depois de um tempo, doutor, não mais falava comigo, doutor. Minha Alicia quase que nem mais abria a boca, a coitadinha. Primeiro não mais abria a boca pra falar e foi ficando sempre mais calada que até muda parecia. Depois a boca nem se abria nem para rir, nem para mostrar os dentes como faz um cavalo quando está furioso, mas a minha Alicia nunca ficava furiosa, nem ficava nem nervosa, nem braba, mas nem assim mostrava os dentes brancos a pequenina, minha mulherzinha. E depois de nem abrir a boca pra falar e nem abrir a boca pra rir, nem mais abria a boca para respirar mais fundo quando estava eu em cima dela e depois nem mais abria a boca pra engolir o que queria eu que ela engolisse, doutor. E, por fim, tudo por culpa desses médicos da cabeça que se trancavam com ela lá dentro daquela sala só eles, que minha Alicia nem para comer abria mais a boca. E a boca dela ficou-se para sempre fechada e cerrada e trancafiada que parecia é que tinham nela passado cola. Mas não uma cola fraca não, que tem aqui nestes armazéns, é uma cola muito boa que só tem no estrangeiro e cola tudo, até boca de gente e acho que colou a boca da minha Alicia doutor, que não abriu mais.
Eu a amava, doutor e a via lá daquele jeito, a coitadinha. Se não a amasse não me teria com ela casado.
E a informação que tenho é essa e a informação que tem o senhor é diferente da minha que eu sei, e não precisa o senhor me dizer. Mas diga-me o senhor o que disser, não vai me mudar o pensamento. E se não disser o senhor nada também, não precisa dizer, pois nada mudará. Estarei de noite, hoje, em casa com minha Alicia. A última noite hoje com a coitadinha. E se não abrisse mais a boca a minha Alicia, doutor, não seria então mais ela a minha Alicia. Tinha de tentar querê-la, entende? Mesmo que assim ficasse e assim ficou. A Alicia seria a minha Alicia ou não seria, então, nenhuma Alicia. E foi que ela não foi. A coitadinha não abriu a boca mais. Minha última tentativa não deu certo. Mas não me olhe com pena, senhor doutor juiz. Eu não quero ser olhado por ninguém mais assim hoje. Hoje só quero em casa ir. Posso ir em casa hoje né, senhor doutor? Amanhã a Alicia vai embora e então praqui eu volto. Se fechou já a Alicia para sempre. Não só a boca, mas toda ela tá já fechada. Não é mais ela não quem está lá. Mas finjo que estarei a vê-la. Pelo menos não estará a cheirar até amanhã. A beleza da coitadinha saberei ouvir com os pensamentos, já que a Alicia fechou-se. Amanhã eu volto sim, deixe-me passar lá esta noite, pois se não a amasse, não me teria com ela casado
*conto de Emir Ross, publicado no livro Inventário das Delicadezas.
criado por Emir Ross
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Comentário por Cristina — 9 de março de 2008 @ 21:38
De nada. Aliás, faltou dizer que está lá no http://www.inventariodasdelicadezas.wordpress.com
Beijoca
Comentário por Fernando Ximenes — 10 de março de 2008 @ 16:59
Emir
Lindo texto, fez eu relembrar minha Alicia que anda perdida em algum canto do Chile a minha espera, ou não, rsssss
Abraços
Comentário por Gitane — 10 de março de 2008 @ 23:16
Alicia é o nome do doce mais doce de que tenho notÃcia: Minha sobrinha. ; )
Belo conto, Mistuh ; )
Comentário por marta maronez cigaran chaves — 19 de julho de 2009 @ 22:28
juremir machado hilário irônico sarcástico da silva?????