25 de abril de 2008
Disparates
Pensar nos sonhos
não é pensar nos planos
Pois viver a vida
não é construir um edifício.
Pensar nos sonhos
não é pensar nos planos
Pois viver a vida
não é construir um edifício.
Nas próximas horas você será agraciado por alternativas. Será digno de fazer escolhas. Mas, por favor, não diga “não há outra alternativa”, porque além disso limitar suas opções, reduzirá sua capacidade de fazer frases inteligentes.
Os defensores do coloquial dirão que sou excessivamente rebuscado. Não sou rebuscado. Os rebuscados não escrevem foder, burro, porra e outras palavras que dão tesão. Os rebuscados, se bobear, escreverão “não há outra alternativa”.
Há um limite tênue entre a idiotice, o rebuscamento e eu. Gosto de pisar na linha que fica entre esses três paradoxos.
Afinal, o que seria das palavras se não houvesse disparates.
Vejam o Juremir Machado da Silva – para mim, o maior cronista de todos os tempos, tu é melhor que o Baudrillard, Juremir -. Quando ele escreve “amo o Diogo Mainardi” eu gozo instantaneamente. Um gozo estupidamente molhado. Porque este é o maior paradoxo das crônicas brasileiras de todos os tempos.
Agora, percebam o paradoxo entre ‘amar’ e ‘foder’.
Uns entendem essas palavras como sinônimos. Outros, como contra-senso.
Se amar e foder forem sinônimos, embora com sentido dúbio, meu gozo duraria mais alguns minutos de rajadas fulminantes. Pois isso me permitiria ler a seguinte frase no Juremir “eu fodo o Diogo Mainardi”, e ainda leria mais “eu fodo suas duzentas e treze camisas azuis artificialmente desbotadas e dobradas até o cotovelo”. E leria ainda “eu fodo seu sotaque ítalopaulistamanhatiano com palavras que só ele entende”.
Mas voltemos às alternativas.
Nas próximas horas você poderá ficar pensando se o Juremir quer amar o Diogo ou se o Juremir quer foder o Diogo.
E, quando finalmente você chegar a uma conclusão e esta lhe parecer a mais clara de todas, por favor, não diga “não havia outra alternativa”.
Eu sou um cretino. E não me esforço para isso. Consigo ser na mais absoluta espontaneidade. Tem gente que se esforça. Faz até cara feia para parecer-se como tal. Mas não consegue. Os cretinos têm a cara bonita. Um sorriso tão falso que se expressa como o mais íntegro.
Eu sou um cretino de cara bonita. Gasto até alguma energia para parecer mais feio, como deixar a barba mal feita e o cabelo desarrumado. Mas os cretinos conseguem sempre figurar melhores do que são.
Uma amiga disse-me hoje que eu não estava escrevendo neste blog. Respondi com uma pergunta. “Não?”. “Pelo menos na semana passada, nada novo.”, disse ela, ingenuamente, como todas as pessoas de bem. Então, fui sincero: “Vou escrever qualquer cretinice aqui.”
Queria pegar uma poesia. Curta. Para fazer as pessoas chorarem rápido. Mas desisti e decidi segurar a poesia pra semana que vem. Na verdade, sou tão cretino que estava com preguiça de procurar tal poesia. “Farei um texto rápido, falando de mim”.
As pessoas gostam de ler confissões ou diários ou coisas parecidas referentes à vida alheia. Alguns intelectuais as chamam de cretinas. Mas eles não sabem o que é ser cretino. Na verdade, os intelectuais nada sabem da vida real e, consequentemente, para nada servem. Essas pessoas, por sua vez, são apenas burras. E burrice é algo de fácil convivência. Já a cretinice é uma arte. Não se aprende. Nasce-se com ela.
E, felizmente, para mim, quanto mais o tempo passa, mais os dotados dela se aprimoram.