23 de maio de 2008
Conflitos:
Existem vários mundos em cada pessoa
e um só mundo
para todas elas.
Ontem assisti Segredos de Cabaret. Um filme francês com a Catherine Deneuve no elenco. Eu seria hipócrita se tentasse resenhar o filme. Posso escrever o que estava na caixinha. Mas essa informação vocês mesmos podem conseguir. Cochilei algumas vezes no sofá da minha sala, enroscado na minha gata. Não que o filme fosse chato ou monótono, longe disso. É que tenho tendência a dormir em locais escuros.
Segredos de Cabaret tem vários momentos de humor sutil. Momentos em que a gente realmente frui pelas tiradas inteligentes.
Se estiver acordado.
Há um momento espetacular em que uma personagem, jornalista ou coisa do gênero, deve escrever um editorial para sua revista. Ela pede licença para a pessoa com quem está contracenando e diz que tem um texto sobre a América do Sul para criar, fazendo uma ligação entre tango, caipirinha e Machu Picchu.
Isso é espetacular.
Esses seis segundos de filme valeram os três e cinqüenta que paguei à bloquebâster pela locação.
Imagino como são os turistas menos informados que vêm à América do Sul. Fazem seus planos, seus roteiros, tiram dos roupeiros seus coletes beges de quatorze bolsos visíveis mais seis imperceptíveis para guardar objetos de valor como pílulas e colírios e chegam aqui faceirinhos. Cheios de euros.
Então contam alguns euros antes de sair pras aventuras e deixam boa parte nos cofres dos hotéis. Nos seus planos estão chegar em Machu Picchu, tirar dezenas de fotos de um monte de pedras que cada guia diz ter um significado diferente, fazer alguns filmes com as lhamas e, no final do expediente, tomar uma caipirinha olhando Wayna Picchu.
Claro que eles descem até Aguascalientes querendo umas aulas de tango para a noite. Quiçá, mulatas para dançar.
É isso aí. Globalizaram a América do Sul. Mas assistam ao filme. Para manterem-se acordados indico pipocas, chás e uma mão excitada.
Não tentem me convencer do contrário. O Pingüim e o Delfim Neto são a mesma pessoa. E, tanto no Brasil quanto em Gotham City há estoques intermináveis de Pingüins e Delfins Neto. É comum fazerem intercâmbios quando algum lote apresenta problemas.
O Pingüim é inimigo mortal do Homem Morcego, que frustra seus planos de ser feliz. O que é felicidade, neste caso, não importa. No Brasil, o Delfim Neto é inimigo mortal dos morcegos que, segundo ele, são os responsáveis pela seca no Nordeste. O que é a seca, neste caso, também não importa.
O Pingüim vive no subsolo.
O Delfim vive no subgoverno.
O Pingüim tem um guarda-chuva.
O Delfim tem uma caneta.
O Pingüim começou sua carreira como um assassino convicto. Ele matava para alimentar sua alma. Logo depois, passou a atuar de outra forma: apropriação indébita, fraudes, extorsão.
No começo da vida, Delfim Neto era contínuo de uma fábrica. Depois, bem, depois não preciso dizer para onde foi sua carreira.
Dentro da minha predileção por confusões e sentidos dúbios, espero que logo chegue a hora em que alguém dê um fogo no Delfim (ou no Pingüim) e cause um estrago em seu discernimento a ponto dele não lembrar o país em que está.
Seria interessante vê-lo com um guarda-chuva na mão, falando no ouvido do presidente do Brasil. Tudo em inglês – pois já que o presidente não entende nada mesmo, desta vez ele não entenderia num idioma global.
“Let´s get the world.”
Lá em Gotham City, o personagem chamaria seus súditos penosos e daria palestras de como se fazer uma política econômica e de como plantar cáctus no sertão. Eles não se interessariam muito, mas achariam interessante a forma em se manter tantos anos transitando no poder sem ter que tomar sol. Neste caso, o que é sol, não importa.
Enquanto esse dia não chega, fico aqui torcendo pro Batman derreter o Pingüim e pro Lênin puxar as pernas de Delfim Neto de noite. Mas como isso é apenas um ideal e ideais jamais acontecem, tento me proteger de todas as formas possíveis, pois sei que os estoques de Delfins e Pingüins são intermináveis.
Vida e morte
são como um
sonho feliz
interrompido pelo
tocar de um telefone.