milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

27 de outubro de 2008

Defeitos

É praticamente impossível alguém botar defeito em mim. Não há espaço.
Eu já tenho todos.
Defeito duplo não conta.

Todo dia, passo algumas horas a procurar novos defeitos para meu acervo. Confesso: no meu estágio evolutivo, é difícil encontrar novos. Quando acontece de eu não me deparar com um, trato de aprimorar os existentes. Com minha experiência adquirida por anos de empenho, isso é barbada.

O aprimoramento de um defeito consiste em observar alguém que tenha o mesmo defeito que o seu, mas o exerce de forma muito mais profissional.
Por exemplo: quando preciso aprender a mentir melhor, acompanho uma semana na vida de um político. Nesse caso, as semanas são um pouco mais curtas: mais precisamente, duram dois dias: de terça a quarta. Talvez por isso os políticos nunca tenham espaço na agenda. Com minha capacidade de aprendizado, em poucas lições já saio convencendo padre a abençoar cachorro.
Eu já sou um péssimo escritor: escrevo tão mal que minha única leitora manda cartas e cartas para que eu comece a escrever em braile. Mesmo assim, tento aprimorar-me. Afinal, sempre pode-se escrever pior. Nestes casos, leio muito. O meu favorito é Martha Medeiros. Mas também leio alguns gaúchos que ainda não são escritores e se acham talentosos e futuros saramagos. Depois, tento imitá-los. Confesso que tenho conseguido escrever textos tão ruins, mas tão ruins, que não consigo sequer chegar ao final. Daqui a pouco chegará alguém e dirá que é literatura pós-moderna e que poderei ganhar milhões editando na França. Mas não cederei, direi que é literatura ruim mesmo. Ruim que nem caralho lê.

Sou um infame, sei. Mas não me elogie assim. É gostoso ser chamado de infame. Você diz IN-FA-ME e as letras vêm de forma arredondada. Sexy. Eu sou mais infame que um dicionário jogado na sarjeta. Ali, todas as palavras são sujas. Eu espiro lama por todos os lados.
Mas, como digo, nada que não possa ser piorado. Quando quero enfeiar minha cara horrenda, faço a barba. Fico com aquele rostinho bunda de neném guchi-guchi. Ninguém resiste à vontade de cuspir em alguém perfeitamente barbeado. Delicio-me com as flechas cortando o ar em minha direção:
DEPRAVADO
BO-ÇAL
EGO-ÍS-TA
FANRA-RRRÃOOOOOO
DETESTEI

E, a minha preferida:
CRE-TIIIIIIIIIIIIIIII-NO

Essa última é a mais excitante.
Mas o que mais gosto é que as pessoas, após falarem deliciosamente com a boca mais cheia de saliva que dentes para saborear ao máximo o defeito, é vê-las sorrir de canto de boca, principalmente as mulheres.
As mulheres deleitam-se com o defeito. Falam pausadamente. Engolem devagar. Depois, aquele sorrisinho disfarçado e uma piscadela para o lado.

Nessa hora, já sei o que devo fazer.

criado por Emir Ross    14:27 — Arquivado em: Sem categoria

15 de outubro de 2008

Sobre meus dias

 … sentado com uma caneta na mão, às vezes essa caneta vira um teclado e

 a tinta é só uma sujeira virtual.

criado por Emir Ross    15:10 — Arquivado em: Sem categoria

7 de outubro de 2008

Não aceito gordo como sócio

Se eu estivesse a abrir uma empresa, colocaria uma ressalva: não aceito gordo como sócio.

Jamais confiarei num gordo. Geralmente, eles são mentirosos. Já repararam que os gordos passam a vida sem comer? Eu conheço um que vive de luz. Mas quando aparece, começa a falar em comida. Dá dicas de receitas, acompanhamentos, molhos, faz planos para o almoço, o jantar e a programação culinária dos próximos três finais de semana. Tudo no condicional, afinal ele está de regime e não pode comer. Então, faz um relato sobre os alimentos dietéticos que ingeriu no dia anterior.

Jamais confiarei num gordo. Gordo, quase sempre, é mentiroso. Depois de encher nosso saco com o seu regime inflexível, ele tira um pacote de biscoitos da mochila e começa devagar ‘só um para beliscar’. Passa a manhã beliscando. Tomando refri ligth. E o pior, fazendo tabelas das calorias ingeridas no dia. Ele esconde algumas de si mesmo, afinal ele mente incondicionalmente.

Além de mentirem, os gordos não tem tempo para nada: academia, livros, cinema, passear no parque. Eles odeiam tirar a bunda do sofá. E todo dia encontram um subterfúgio para mostrarem ao mundo como são competentes.
Se quiserem fazer um gordo suar, coloquem um prato cheio de comida gordurosa na frente de uma esteira. Ele correrá durante horas.

Acho que eles seriam bons advogados de defesa. Principalmente se tratando de direito penal. Sempre interpretam a lei de uma forma peculiar:
O réu sente fome de madrugada e come três quartos do frango que estava na geladeira: culpa da geladeira que estava na cozinha. Quando o réu está no supermercado e compra dezoito pacotes de salgadinho ligth, quatro litros de refrigerante que estava sendo lançado e um maço de chocolate com uma dúzia de unidades em promoção: culpa do supermercado que força as vendas com mensagens subliminares. Ele serve-se seis vezes no restaurante, fora a sopa e três sobremesas: culpa do restaurante que é buffet livre.

Voltando à empresa que penso em abrir, de preferência, sem sócios, seria ela de tráfico de comida para dentro de spas. Sabe aqueles lugares aonde as pessoas vão para perder peso? Poisé, os gordos pensam assim: se ninguém enxergar, não estarei comendo.
Creio que teria sucesso.
O problema dos gordos é que eles mentem tanto para todo mundo que acabam mentindo para si próprios. Aí, entram num dilema, pois acabam não acreditando mais nas próprias palavras. Geralmente sucumbem.

Melhor tirar os pés de perto nessas horas. Pois as conseqüências podem ser dolorosas.

criado por Emir Ross    17:21 — Arquivado em: Sem categoria

1 de outubro de 2008

Que porra, Borges

Tenho uma amiga escritora, a Dani Langer. Ela escreve muito melhor do que eu. Na real, eu nem escrevo. Ela sabe o que faz: é acadêmica, seus textos são limpos e aparados; encaixados e bem-servidos.
Nos meus, o único encaixe é no quadril dos personagens. Os textos são sujos de porra e lama e não são servidos: quem quiser, que se preste.

Talvez por isso a Dani Langer seja melhor escritora que eu.
Mas, talvez, ela seja melhor por gostar de Borges. Jorge Luis Borges.

Certo dia, numa conversa entre escritores, disse ela ao público: “façam um favor a vocês mesmos, leiam Borges”.

Eu já havia feito aquele favor a mim mesmo. E confesso: não gostei.
Achei Borges fantástico, fenomenal, excelente, maravilhoso, genial e tudo mais de bom que pode-se achar de um escritor. Mas achei ele muito limpinho. Não gostei.

Acho Borges muito bom.
Mas não gosto.
Não sei por que não gosto. Não gosto e pronto. Talvez por ele ser real, perfeito, conceitual, ícone, referência, cult, recomendável, intelectual. Taí, não gosto porque ele é intelectual. Não gosto de intelectuais. A cada cinco posts repito que intelectuais para nada servem.
Eu gosto de coisas vivas. Gosto do absurdo. Do bizarro. E gosto da irrealidade.

Borges transforma as invenções em verdades.

Eu prefiro quem transforma mentiras em mentiras. E nos faz acreditar nisso. Eu gosto de acreditar nas coisas improváveis.
Acredito até no ser humano.
Por isso não vivo no mundo real. Às vezes é válido manter-se ignorante. É mais salutar física e mentalmente.
As pessoas, de modo geral, gostam de Borges. Acho que a maioria delas gosta porque não entende. A outra parte gosta porque dizem-lhes que é cult, recomendável, intelectual… Faz parte do jogo. Essas pessoas são como eu: não vivem no mundo real.

Qual a diferença, então? Nenhuma.

Tenho certeza de que gostar ou não de Jorge Luis Borges não fará diferença alguma na vida das pessoas. Assim como não faz diferença casar com marido rico ou pobre, dormir com mulher bonita ou feia, passar o final de semana em Mônaco ou Tramandaí.
A diferença é que tem gente que lê Borges e não gosta: e tem gente que gosta, mas não lê. Tem gente que casa com marido rico, mas não casa. Assim como tem gente que passa o final de semana em Tramandaí, mas está em Mônaco.

A diferença, amigos, não é o que se faz. Tenho certeza de que vocês me entendem ipsis literis. Se não, por favor, bóra ler Borges.

criado por Emir Ross    11:55 — Arquivado em: Sem categoria
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://milkyway.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.