milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

18 de dezembro de 2008

Os parabéns

Há algo de errado quando alguém nos dá os parabéns. Primeiro que, se parabéns fosse bom, as pessoas não dariam: venderiam ou trocariam por algo comercialmente valoroso. Segundo, porque apenas dão-nos os parabéns quando raspamos até os últimos resquícios de nossa conta bancária.
Os parabéns vêm sempre em péssima hora. Quando estamos desesperados por termos feito grande burrada, agido por impulso ou nos deixado levar pela opinião de um conhecido falastrão.

E após estarmos sem um centavo na conta por termos comprado um carro desnecessariamente caro, um apartamento desgraçadamente amplo ou um filho que, além do dinheiro, nos tirará a saúde, que todos nos sorriem sarcasticamente, pronunciando entre-dentes, felizes por estarmos na merda, sem um tostão para jantar fora: ‘meus parabéns.’

Estou incrivelmente irritado com essa forma cordial de dizer: ‘fodes-te-te, então.’
Estou incrivelmente irritado com essa forma cordial de dizer: ‘nas férias, ficarás pagando as contas, então.’
Estou incrivelmente irritado com essa forma cordial de dizer: ‘és fraco.’

Nessa nova reforma que tramam a favor da língua portuguesa, sugiro que seja abolida esta expressão, que, para começo de protesto, pretendo não mais mencionar nesta crônica.
Que seja abolida essa forma e que nos digam sem ironias o que sentem quando nos atolamos em percalços consumistas desnecessários.
Que nos chamem idiota, frouxo, sem opinião e até sem camisinha.
Mas que não nos digam mais a expressão nociva. Que nos enoja e enterra a cada vez mencionada. Pois essa expressão não é um ato cordial.
É uma acusação.
E, em certos casos, uma sentença.

Espero livrar-me da minha por bom comportamento.

criado por Emir Ross    13:24 — Arquivado em: Sem categoria

1 de dezembro de 2008

Peçonhentos

Descobri que tenho críticos. Estou felicíssimo. Não é todo mundo que consegue isso. Eu os adoro, principalmente os que tentam ser mais irônicos do que eu, dizendo que os meus textos andam parecidos com os do Juremir Machado da Silva. Dizem que ele anda me imitando.
Discordo.
O Juremir mal tem tempo de imitar o Michel Houllebecq.
Eu, no entanto, tenho todo o tempo do mundo. E uso parte dele para imitar o Juremir. Porque tudo que quero é ser o filhotinho dele. Já redigi, inclusive, um pedido de adoção. Tudo que o Juremir faz eu vou lá faço também. De preferência ainda pior. Principalmente quando o assunto é falar mal de quem não gostamos.
Daqui até o final desta crônica, escreverei no plural. Tenho certeza de que o Juremir concordará em formar esse plural comigo.

Nós detestamos polêmicas. Eu tenho aprendido com o JMS a evitar o politicamente incorreto. Pos isso sou tão polido nas palavras e afirmações. Ambos evitamos travessuras no dia-a-dia. Somos meninos comportados. A gente não gosta muito de cronistas repetitivos e que desenham cobras. Mas isso não merece mais linhas. Afinal, nosso animal peçonhento preferido é a aranha.
A gente adora procurar furos. Sejam eles na política, no esporte, na literatura, no jornalismo e, principalmente, nas pessoas, ainda mais se essas tiverem silicone.
Nós temos um diploma perdido em algum lugar de nossas casas, que para nada serve. Pelo menos na atualidade. O meu já serviu para tirar uma tarde de folga.
Vivemos para dar opinião. De preferência quando não somos chamados para isso.

Em alguma das entrelinhas desse texto, nosso leitor-crítico, que por certo é muito perspicaz, deve ter já percebido que eu e o Juremir somos a mesma pessoa. Logo, é impossível que ele me imite, pois estaria imitando a si mesmo, num eterno retorno narciso-autofágico.

Então, apenas nos resta imitar o Houllebecq. E como este é inimitável pela própria essência pós-modernista, ainda está por surgir uma lógica de tempo-espaço que seja coerente com as afirmações referidas.

É tudo uma questão de estilo.
Ou da falta dele.

criado por Emir Ross    10:22 — Arquivado em: Sem categoria
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