milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

3 de agosto de 2009

Pinus Elliottis

Decidi ontem qual será o tema do meu próximo romance de suspense policial: o Meio Ambiente. Em meio aos vários coadjuvantes destacar-se-ia o personagem chamado Pinus Elliottis.

 

Ele é arrasador. Inescrupuloso e voraz. Enquanto você lia o parágrafo acima ele matava três árvores nativas no Brasil. Agora, já se foram cinco. O Pinus Elliottis está formando um exército. Grande e invencível. Por onde passa, deixa um rastro de devastação e morte. Cuidado, hoje mesmo ele poderá estar batendo à sua porta, oferecendo o retorno financeiro rápido e garantido. O mesmo que faz o diabo quando compra as almas de cantores de blues.

 

Qualquer deslize ou pausa que você fizer pode ser fatal. Depois que ele chega, já era. A terra fica árida, os incêndios multiplicam-se, os pássaros saem em revoada; os animais que não conseguirem fugir a tempo logo servirão de alimento para suas raízes ferozes e implacáveis. Em breve, esse exército, não contente em acabar com nossa mata nativa, passará a matar prédios e arranha-céus. Ninguém escapa. Se você está começando a ficar tenso, saiba que isso é apenas o começo.

 

O Pinus Elliottis é canibal. Come os da sua espécie. Não para sobreviver, mas para multiplicar-se. Onde havia um, que virou uma mesa de centro, aparecem dois. Pois as pessoas insistem em ter várias mesas de centro espalhadas pela casa, mesmo quando não precisam delas; logo, terão mesas de centro nos toaletes. Isso é tudo obra do Pinus Elliottis. Porque ele leva a sério a sina ‘crescei, multiplicai-vos e acabai com as demais espécies’.

 

Quando esses fenômenos acontecem, sempre se discutem as motivações. Eu diria que o grande culpado pelo Pinus Elliottis estar destruindo nossas matas nativas com seus exércitos de madeira plástica é o alarde que andam fazendo sobre o reflorestamento. Trata-se de um reflorestamento pra cá, reflorestamento pra lá que o maldito encontrou uma brecha para enraizar-se em nosso meio. A mania de reflorestar faz as pessoas acreditarem que florestas de Pinus Elliottis irão resolver nosso problema. Legitimamente. Enquanto isso, a cada cusparada, sai um soldado intruso a tomar lugar de um pau-brasil.

 

Em tempos remotos, a terra existia por existir. E, nela, cresciam espécies por si sós. O máximo de intrusão era uma andorinha que defecava sementes no principiar do verão. Agora, estamos nessa onda natureza-lucro-bemestar e achamo-nos andorinhas. O problema é que nós, seres humanos, temos o poder de uma defecada latifundiária. E o resultado espalha-se em poderosos Pinus Esgotus terra árida afora.

 

Vez por outra, esses defensores do reflorestamento, que por cima dos panos entregam as almas verdes do nosso país para o Pinus Elliotis, se encontram. Na pauta de seus assuntos, uma maneira de plantar, uma de cuidar, uma de colher o pinus. Porque só há uma maneira. Além de tudo, o pinus é totalmente monótono. Não oferece, sequer, uma forma divertida de existência para os humanos a quem enganam. Talvez, o fim da vida desses plantadores de pinus ofereça mais opções. O que duvido. Ou morrem tentando apagar incêndios tão comuns nesses cultivos, ou de câncer nos pulmões, pois o pinus não libera oxigênio de suas folhas, libera ganância, e esta devasta os pulmões.

 

Além de venenosa, a ganância é alucinógena. Ela provoca fantasias nas mentes dos fazendeiros. Estes idolatram o pinus e consideram as matas templos sagrados. Do capital. Matas meretrizes. Que vendem o corpo pela oferta mais alta. A cada possível cliente, mandam recados provocadores: “Imagine a mesa de centro que você poderia fazer com minhas ancas.” E os fazendeiros lá. Cafetões. Cientes de que, logo, logo, a terra não terá mais serventias.

 

Estou acreditando piamente neste personagem. Com ele, o sucesso do meu livro é certo. E, enriquecer, será conseqüência. Terei dinheiro suficiente para comprar fazendas de pinus e mandar tratores impiedosos passarem por cima de tudo. Também sentirei enorme prazer ao observar lareiras do tamanho de vinte e nove campos de futebol. E será divertido jogar ao vento que ganhei aquilo tudo graças ao pinus. Meus olhos já brilham em verdes cifrões. Brilham de Pinus Elliottis. Afinal, tenho duas certezas: ou encho os cofres com meu personagem, ou encho os cofres com o pinus de verdade. Ao chegar esse dia, façam-me um exorcismo e fujam rápido, pois ao diabo ninguém é imune.

 

 

criado por Emir Ross    18:20 — Arquivado em: Sem categoria
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