milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

26 de outubro de 2009

Cabeças cortadas

 

Eu não sei porque, mas o cabeleireiros estão me lembrando cada vez mais uma profissão que nunca faz o que a gente espera deles: os políticos.

 

Eu ainda não consegui descobrir porque os cabeleireiros perguntam como queremos o corte. Afinal, depois de sentarmos naquela cadeira, que mais parece uma cadeira de força ou uma cadeira elétrica beirando para uma cadeira dos horrores, eles fazem o que bem entendem da nossa cabeça. Houve um, em Sevilla, que fazia lingüiça.

Os cortes de cabelo nunca são o que a gente espera. Um dos motivos, claro, é o nosso cabelo. No Brasil, é comum mulatas podres de fashion mega produzidas, embaladas e aromatizadas chegarem ao cabeleireiro não menos bem empacotado, com uma revista mega-tendência última-moda ultra-moderna com cortes hiper-descolados vindos lá do Japão. Depois de trocarem idéias, fofocas, beijinhos e elogios é hora de conferir as tesouradas e sair com cara de nojo porque o cabelo pixaim ficou diferente do cabelo espetado da mulata made in japan da revista.

 

Voltando aos políticos. Pra começar, político não é profissão, embora a grande maioria no Brasil se denomina político profissional. Político é um cargo. Público. E profissão é algo exercido por profissionais. Mas tendo em vista a grande trama que rola pelos poderes, tiro o meu chapéu para esses profissionais.

Eles são sensacionais. Na verdade, se todos os profissionais brasileiros levassem à risca sua profissão como os políticos seríamos o país número um em Nobels. Os políticos têm carreira. Sim: carreira política. Isso significa que você começa por baixo, faz estágios, aprende a discursar, leia-se mentir, faz alianças, leia-se quadrilhas e destina as verbas para as necessidades da população, leia-se necessidades políticas.

 

Tirando os políticos, as mulatas e os cortes japoneses que nem japoneses são, o que me faz ficar mais puto que o cabeleireiro é o ego desses tesoureiros. Esses dias cheguei ao salão para reduzir um pouco o volume de minha juba. “Um pouco”, fiz questão de mencionar. Mas biba quando se empolga é pior que o Edmundo. Fominha ao extremo. Não larga a tesoura. É navalhada e cabelo voando e caindo e chiando por todo lado. Até parece político cortando verba da merenda escolar. Taí outra coisa em comum entre cabeleireiros e políticos: ambos estão sempre a par da tesouraria.

Resultado: fiquei com corte de milico de Segunda Guerra Mundial.

Eu não entendo essa fixação em acabar com a cabeça dos outros.

Eu não entendo esse desejo insaciável de inventar moda nos cabelos alheios.

Eu não entendo, finalmente, porque perguntam “O que vamos fazer nesse cabelo sem vida?”

 

Talvez a resposta esteja nos caixas secretos do Senado. Mas o que quero realmente salientar é que sem vida é o que o próximo cabeleireiro que não seguir minhas instruções vai ficar. Da próxima vez, chegarei dizendo: “meu cabelo tá sem vida, mas presta atenção, faz o que eu quero senão tu vai é ficar igual a ele.”

Essa é uma boa frase para se dizer a um político em véspera de eleição, quando este prometer dar mais vida à população.

Invejo meu pai, que não pegou essa onda de cortes. Lembro dele saindo todo sábado após a sesta. Ia para o barbeiro. Chegava em casa ao anoitecer com os bolsos repletos de balas, com a barba feita e o cabelo aparado. Todos os sábados. Com o cabelo do jeito que ele queria. E com os bolsos cheios.

Isso que é ser moderno-tendência-últimamoda-fashion: é ir ao barbeiro e este fazer exatamente o que a gente quer. É eleger um político para um cargo e ele defender nossos interesses.

Esse pessoal que insiste em fazer nossa cabeça, seja em Brasília ou no Salão do Shopping, não tá com nada. Está, no máximo, com os dias contados pelas lâminas de uma tesouraria bem afiada.

 

criado por Emir Ross    18:02 — Arquivado em: Sem categoria

9 de outubro de 2009

O avesso

Eu sou um avesso. Minha mãe já dizia isso quando eu tinha nove anos insistia em usar as camisetas do lado errado. Eu virava as costas para ela e dizia que não existia lado errado. Existia lado de cá e lado de lá. E que ambos mudavam de sentido conforme nossa localização.

A posição dos lados e das camisetas sempre continuaram mais ou menos os mesmos. Mais ou menos. Embora minha mãe nunca tenha aceitado as verdades envolvendo os lados. Mas tudo bem, eu nunca sofri muito por causa disso. Embora tenha levado o uso da camiseta para outros pontos. Por exemplo:

Enquanto alguns buscam lugares da moda para badalarem, eu procuro porões onde, preferencialmente, ninguém me conheça.

É muito mais divertido, afinal posso fazer o que quiser, inclusive grudar os olhos e tudo mais que der vontade nos decotes que sempre aparecem seja lá onde estivermos.

É mais gostoso estar ao avesso. Se você for para lugares onde todos prestarão atenção na etiqueta da sua calça, seguramente estarei num posto onde roupas não são necessárias. Sou meio suspeito para falar disto, mas, dá pra fazer coisas muito mais interessantes quando não se está a usar nada. Dá pra ficar do melhor lado avesso possível. Avesso da pele.

Por assim dizer, parece que jamais frequento lugares onde se necessite entrar de blazer. Não é verdade. Até participo dessas convenções. Mas é ridículo presenciar, principalmente mulheres que passam duas horas a vestir-se para depois despir-se em dois segundos. Nessas horas percebe-se seu lado avesso. Confesso que é igual a todo mundo.

Por isso não entendo essa filosofia do direito. Se o que todos almejam é ficar sem roupa, por que investem tanto nos panos que as cobrem?

Há coisas, no entanto, que é melhor deixar por baixo dos panos: as sessões no senado, os planos dos parlamentares, a picanha daquela colega que vive se esfregando em você e insistindo em estourar sua taxa de colesterol. Quanto mais eu conheço do mundo, mais levo em conta a função dos panos. E, acreditem, eles não trazem bons agouros.

A mania de achar-me o oposto da civilização impõe-me esse rótulo. Mas se todos fazem uma coisa querendo fazer outra, porque eu, que somente faço o que gosto é que sou o avesso?

Não sei a resposta.

O que sei é apenas que enquanto a humanidade preocupa-se, vive e respira para agradar aos outros, principalmente aos inimigos, ou desafetos, eu avesso-me a estas estruturas e prendo-me nos porões, nos decotes e nas saias justas.

De preferência, as jogadas no chão do meu quarto.

Do lado avesso.

 

criado por Emir Ross    15:46 — Arquivado em: Sem categoria
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