9 de outubro de 2009
O avesso
Eu sou um avesso. Minha mãe já dizia isso quando eu tinha nove anos insistia em usar as camisetas do lado errado. Eu virava as costas para ela e dizia que não existia lado errado. Existia lado de cá e lado de lá. E que ambos mudavam de sentido conforme nossa localização.
A posição dos lados e das camisetas sempre continuaram mais ou menos os mesmos. Mais ou menos. Embora minha mãe nunca tenha aceitado as verdades envolvendo os lados. Mas tudo bem, eu nunca sofri muito por causa disso. Embora tenha levado o uso da camiseta para outros pontos. Por exemplo:
Enquanto alguns buscam lugares da moda para badalarem, eu procuro porões onde, preferencialmente, ninguém me conheça.
É muito mais divertido, afinal posso fazer o que quiser, inclusive grudar os olhos e tudo mais que der vontade nos decotes que sempre aparecem seja lá onde estivermos.
É mais gostoso estar ao avesso. Se você for para lugares onde todos prestarão atenção na etiqueta da sua calça, seguramente estarei num posto onde roupas não são necessárias. Sou meio suspeito para falar disto, mas, dá pra fazer coisas muito mais interessantes quando não se está a usar nada. Dá pra ficar do melhor lado avesso possÃvel. Avesso da pele.
Por assim dizer, parece que jamais frequento lugares onde se necessite entrar de blazer. Não é verdade. Até participo dessas convenções. Mas é ridÃculo presenciar, principalmente mulheres que passam duas horas a vestir-se para depois despir-se em dois segundos. Nessas horas percebe-se seu lado avesso. Confesso que é igual a todo mundo.
Por isso não entendo essa filosofia do direito. Se o que todos almejam é ficar sem roupa, por que investem tanto nos panos que as cobrem?
Há coisas, no entanto, que é melhor deixar por baixo dos panos: as sessões no senado, os planos dos parlamentares, a picanha daquela colega que vive se esfregando em você e insistindo em estourar sua taxa de colesterol. Quanto mais eu conheço do mundo, mais levo em conta a função dos panos. E, acreditem, eles não trazem bons agouros.
A mania de achar-me o oposto da civilização impõe-me esse rótulo. Mas se todos fazem uma coisa querendo fazer outra, porque eu, que somente faço o que gosto é que sou o avesso?
Não sei a resposta.
O que sei é apenas que enquanto a humanidade preocupa-se, vive e respira para agradar aos outros, principalmente aos inimigos, ou desafetos, eu avesso-me a estas estruturas e prendo-me nos porões, nos decotes e nas saias justas.
De preferência, as jogadas no chão do meu quarto.
Do lado avesso.
Â
criado por Emir Ross
15:46 — Arquivado em: 

Comentário por Ju — 12 de outubro de 2009 @ 21:38
rimEEmir ssoRRoss
Comentário por marta — 12 de novembro de 2009 @ 18:05
muito bom….adorei!!!! tu estás cada vez melhor!!!!bjs