milkyway

quando escrevemos algo, quando falamos algo, quando vomitamos algo, quando enxergamos algo - algo vai para a Via Láctea - e volta em forma de luzes, sons e palavras que cada um interpreta da maneira que a noite lhe permitir. (Emir Ross)

26 de outubro de 2009

Cabeças cortadas

 

Eu não sei porque, mas o cabeleireiros estão me lembrando cada vez mais uma profissão que nunca faz o que a gente espera deles: os políticos.

 

Eu ainda não consegui descobrir porque os cabeleireiros perguntam como queremos o corte. Afinal, depois de sentarmos naquela cadeira, que mais parece uma cadeira de força ou uma cadeira elétrica beirando para uma cadeira dos horrores, eles fazem o que bem entendem da nossa cabeça. Houve um, em Sevilla, que fazia lingüiça.

Os cortes de cabelo nunca são o que a gente espera. Um dos motivos, claro, é o nosso cabelo. No Brasil, é comum mulatas podres de fashion mega produzidas, embaladas e aromatizadas chegarem ao cabeleireiro não menos bem empacotado, com uma revista mega-tendência última-moda ultra-moderna com cortes hiper-descolados vindos lá do Japão. Depois de trocarem idéias, fofocas, beijinhos e elogios é hora de conferir as tesouradas e sair com cara de nojo porque o cabelo pixaim ficou diferente do cabelo espetado da mulata made in japan da revista.

 

Voltando aos políticos. Pra começar, político não é profissão, embora a grande maioria no Brasil se denomina político profissional. Político é um cargo. Público. E profissão é algo exercido por profissionais. Mas tendo em vista a grande trama que rola pelos poderes, tiro o meu chapéu para esses profissionais.

Eles são sensacionais. Na verdade, se todos os profissionais brasileiros levassem à risca sua profissão como os políticos seríamos o país número um em Nobels. Os políticos têm carreira. Sim: carreira política. Isso significa que você começa por baixo, faz estágios, aprende a discursar, leia-se mentir, faz alianças, leia-se quadrilhas e destina as verbas para as necessidades da população, leia-se necessidades políticas.

 

Tirando os políticos, as mulatas e os cortes japoneses que nem japoneses são, o que me faz ficar mais puto que o cabeleireiro é o ego desses tesoureiros. Esses dias cheguei ao salão para reduzir um pouco o volume de minha juba. “Um pouco”, fiz questão de mencionar. Mas biba quando se empolga é pior que o Edmundo. Fominha ao extremo. Não larga a tesoura. É navalhada e cabelo voando e caindo e chiando por todo lado. Até parece político cortando verba da merenda escolar. Taí outra coisa em comum entre cabeleireiros e políticos: ambos estão sempre a par da tesouraria.

Resultado: fiquei com corte de milico de Segunda Guerra Mundial.

Eu não entendo essa fixação em acabar com a cabeça dos outros.

Eu não entendo esse desejo insaciável de inventar moda nos cabelos alheios.

Eu não entendo, finalmente, porque perguntam “O que vamos fazer nesse cabelo sem vida?”

 

Talvez a resposta esteja nos caixas secretos do Senado. Mas o que quero realmente salientar é que sem vida é o que o próximo cabeleireiro que não seguir minhas instruções vai ficar. Da próxima vez, chegarei dizendo: “meu cabelo tá sem vida, mas presta atenção, faz o que eu quero senão tu vai é ficar igual a ele.”

Essa é uma boa frase para se dizer a um político em véspera de eleição, quando este prometer dar mais vida à população.

Invejo meu pai, que não pegou essa onda de cortes. Lembro dele saindo todo sábado após a sesta. Ia para o barbeiro. Chegava em casa ao anoitecer com os bolsos repletos de balas, com a barba feita e o cabelo aparado. Todos os sábados. Com o cabelo do jeito que ele queria. E com os bolsos cheios.

Isso que é ser moderno-tendência-últimamoda-fashion: é ir ao barbeiro e este fazer exatamente o que a gente quer. É eleger um político para um cargo e ele defender nossos interesses.

Esse pessoal que insiste em fazer nossa cabeça, seja em Brasília ou no Salão do Shopping, não tá com nada. Está, no máximo, com os dias contados pelas lâminas de uma tesouraria bem afiada.

 

criado por Emir Ross    18:02 — Arquivado em: Sem categoria

9 de outubro de 2009

O avesso

Eu sou um avesso. Minha mãe já dizia isso quando eu tinha nove anos insistia em usar as camisetas do lado errado. Eu virava as costas para ela e dizia que não existia lado errado. Existia lado de cá e lado de lá. E que ambos mudavam de sentido conforme nossa localização.

A posição dos lados e das camisetas sempre continuaram mais ou menos os mesmos. Mais ou menos. Embora minha mãe nunca tenha aceitado as verdades envolvendo os lados. Mas tudo bem, eu nunca sofri muito por causa disso. Embora tenha levado o uso da camiseta para outros pontos. Por exemplo:

Enquanto alguns buscam lugares da moda para badalarem, eu procuro porões onde, preferencialmente, ninguém me conheça.

É muito mais divertido, afinal posso fazer o que quiser, inclusive grudar os olhos e tudo mais que der vontade nos decotes que sempre aparecem seja lá onde estivermos.

É mais gostoso estar ao avesso. Se você for para lugares onde todos prestarão atenção na etiqueta da sua calça, seguramente estarei num posto onde roupas não são necessárias. Sou meio suspeito para falar disto, mas, dá pra fazer coisas muito mais interessantes quando não se está a usar nada. Dá pra ficar do melhor lado avesso possível. Avesso da pele.

Por assim dizer, parece que jamais frequento lugares onde se necessite entrar de blazer. Não é verdade. Até participo dessas convenções. Mas é ridículo presenciar, principalmente mulheres que passam duas horas a vestir-se para depois despir-se em dois segundos. Nessas horas percebe-se seu lado avesso. Confesso que é igual a todo mundo.

Por isso não entendo essa filosofia do direito. Se o que todos almejam é ficar sem roupa, por que investem tanto nos panos que as cobrem?

Há coisas, no entanto, que é melhor deixar por baixo dos panos: as sessões no senado, os planos dos parlamentares, a picanha daquela colega que vive se esfregando em você e insistindo em estourar sua taxa de colesterol. Quanto mais eu conheço do mundo, mais levo em conta a função dos panos. E, acreditem, eles não trazem bons agouros.

A mania de achar-me o oposto da civilização impõe-me esse rótulo. Mas se todos fazem uma coisa querendo fazer outra, porque eu, que somente faço o que gosto é que sou o avesso?

Não sei a resposta.

O que sei é apenas que enquanto a humanidade preocupa-se, vive e respira para agradar aos outros, principalmente aos inimigos, ou desafetos, eu avesso-me a estas estruturas e prendo-me nos porões, nos decotes e nas saias justas.

De preferência, as jogadas no chão do meu quarto.

Do lado avesso.

 

criado por Emir Ross    15:46 — Arquivado em: Sem categoria

25 de setembro de 2009

Rápida e Mortal

 

Gosto das mulheres rápidas. Elas são excelentes. Vivem com paixão, entrega. E o melhor, às vezes morrem por isso.

Mas eu sou lento. Completamente lento. Sou adepto do slow food. Prefiro vinho à cerveja. Chá à café. Durmo lentamente. Acordo em pausas. Tomo café demorado. Banhos longos. E faço amor tão devagar que parece se estender pela eternidade.

Mas gosto de mulheres rápidas. Que estejam voltando enquanto vou. Saboreando a sobremesa enquanto divirto-me com a entrada. Rindo da piada enquanto tento entendê-la. Tendo o quinto orgasmo quando me venho.

É tão bom ser devagar que assim eu posso degustar cada gota do que faço. E quando alguns estão engolindo a comida, ainda me estou a deliciar com o sabor em cada glândula gustativa da minha boca. Se é que existam glândulas gustativas. Mas, se não existirem na anatomia convencional, direi a vocês que as tenho. Afinal, minha evolução como espécie foi de forma tão gradual que fui dotado desta particularidade.

Eu gosto de sentir os sabores inteiros. Os salgados. Os azedos. Os doces. Os molhados.

O problema é que ser devagar, na maioria das vezes, faz-me ficar à beira de muitas coisas. A risada na hora certa. O gole depois do brinde. O gozo simultâneo.

Talvez por isso eu prefira as mulheres rápidas. Porque quando a mulher rápida certa aparece, ela me leva pela mão. Conduz-me. Eu, na minha lerdeza paisagística, obviamente tento atrasar as coisas.

Curtir o olhar vazio. O toque no nada. A palavra sem sentido.

Mas então o sabor começa a acontecer. Pois, enquanto ela me leva pela mão, aprecio-lhe a pele. O cheiro. Os pêlos a arrepiar-se vontade adentro.

É por isso que eu sou lento. Porque a lentidão é a forma de agir que mais se encaixa na rapidez. E, cá entre nós, tudo que se encaixa é muito mais prazeroso.

 

criado por Emir Ross    10:11 — Arquivado em: Sem categoria

17 de setembro de 2009

Roger e o bis

Roger Waters não volta para o bis.

Ele faz espetáculos com antes, durante e depois. O depois do Roger Waters é a lembrança e não uma canção requentada.

Para Roger Waters, o bis não faz parte do espetáculo, logo, não precisa existir.

 

Eu não sei se ele pensa assim, mas é uma teoria que formei por constatar isso em cem por cento dos shows dele que frequentei. E frequentar um show do Roger Waters não é assistir a um show. É frequentar mesmo.

Há muitos, para não dizer todos, que fazem um show, saem do palco e voltam para bis. Na hora da última música após o retorno, dizem:

“Não poderíamos sair daqui sem tocar esta canção.”

Ora, se não podiam sair sem tocá-la, por que não tocaram antes?

E se o público não chamasse para o bis?

Iriam sair sem tocar a música que não poderiam sair da cidade sem tocar?

 

O bis é uma das piores demonstrações de falta de amor próprio de que tenho conhecimento. É inadmissível alguém programar um espetáculo assim. O bis é o assassinato da continuidade. A morte do bom-senso. Uma viagem sem volta rumo à bagunça. Há gente que não sabe que a melhor hora de parar é quando se está por cima, né Romário?

Imagino o bis em outras situações.

Após um discurso político, o povo pede bis e o político volta e conta mais algumas mentiras. O coro seria: “mais uma mentira, mais uma, mais uma mentira.”

Após um jogo de futebol em que o time da casa perdeu, os jogadores voltam para mais uma rodada de vaias, com o coro: “uuuuuuuhh, mercenários, uuuuuuuuuuhh, frangueiro.”

Após uma brochada, a mulher também teria direito a pedir um bis: “volta, vai, mais uma brochadinha para eu contar pras amigas.”

 

O bis é hilário em qualquer situação. Apenas quem organiza espetáculos musicais ainda não se deu conta disso. Quer dizer, quase todos. Afinal, Roger Waters sabe muito bem quando é hora do ThankYou.

 

criado por Emir Ross    19:39 — Arquivado em: Sem categoria

3 de agosto de 2009

Pinus Elliottis

Decidi ontem qual será o tema do meu próximo romance de suspense policial: o Meio Ambiente. Em meio aos vários coadjuvantes destacar-se-ia o personagem chamado Pinus Elliottis.

 

Ele é arrasador. Inescrupuloso e voraz. Enquanto você lia o parágrafo acima ele matava três árvores nativas no Brasil. Agora, já se foram cinco. O Pinus Elliottis está formando um exército. Grande e invencível. Por onde passa, deixa um rastro de devastação e morte. Cuidado, hoje mesmo ele poderá estar batendo à sua porta, oferecendo o retorno financeiro rápido e garantido. O mesmo que faz o diabo quando compra as almas de cantores de blues.

 

Qualquer deslize ou pausa que você fizer pode ser fatal. Depois que ele chega, já era. A terra fica árida, os incêndios multiplicam-se, os pássaros saem em revoada; os animais que não conseguirem fugir a tempo logo servirão de alimento para suas raízes ferozes e implacáveis. Em breve, esse exército, não contente em acabar com nossa mata nativa, passará a matar prédios e arranha-céus. Ninguém escapa. Se você está começando a ficar tenso, saiba que isso é apenas o começo.

 

O Pinus Elliottis é canibal. Come os da sua espécie. Não para sobreviver, mas para multiplicar-se. Onde havia um, que virou uma mesa de centro, aparecem dois. Pois as pessoas insistem em ter várias mesas de centro espalhadas pela casa, mesmo quando não precisam delas; logo, terão mesas de centro nos toaletes. Isso é tudo obra do Pinus Elliottis. Porque ele leva a sério a sina ‘crescei, multiplicai-vos e acabai com as demais espécies’.

 

Quando esses fenômenos acontecem, sempre se discutem as motivações. Eu diria que o grande culpado pelo Pinus Elliottis estar destruindo nossas matas nativas com seus exércitos de madeira plástica é o alarde que andam fazendo sobre o reflorestamento. Trata-se de um reflorestamento pra cá, reflorestamento pra lá que o maldito encontrou uma brecha para enraizar-se em nosso meio. A mania de reflorestar faz as pessoas acreditarem que florestas de Pinus Elliottis irão resolver nosso problema. Legitimamente. Enquanto isso, a cada cusparada, sai um soldado intruso a tomar lugar de um pau-brasil.

 

Em tempos remotos, a terra existia por existir. E, nela, cresciam espécies por si sós. O máximo de intrusão era uma andorinha que defecava sementes no principiar do verão. Agora, estamos nessa onda natureza-lucro-bemestar e achamo-nos andorinhas. O problema é que nós, seres humanos, temos o poder de uma defecada latifundiária. E o resultado espalha-se em poderosos Pinus Esgotus terra árida afora.

 

Vez por outra, esses defensores do reflorestamento, que por cima dos panos entregam as almas verdes do nosso país para o Pinus Elliotis, se encontram. Na pauta de seus assuntos, uma maneira de plantar, uma de cuidar, uma de colher o pinus. Porque só há uma maneira. Além de tudo, o pinus é totalmente monótono. Não oferece, sequer, uma forma divertida de existência para os humanos a quem enganam. Talvez, o fim da vida desses plantadores de pinus ofereça mais opções. O que duvido. Ou morrem tentando apagar incêndios tão comuns nesses cultivos, ou de câncer nos pulmões, pois o pinus não libera oxigênio de suas folhas, libera ganância, e esta devasta os pulmões.

 

Além de venenosa, a ganância é alucinógena. Ela provoca fantasias nas mentes dos fazendeiros. Estes idolatram o pinus e consideram as matas templos sagrados. Do capital. Matas meretrizes. Que vendem o corpo pela oferta mais alta. A cada possível cliente, mandam recados provocadores: “Imagine a mesa de centro que você poderia fazer com minhas ancas.” E os fazendeiros lá. Cafetões. Cientes de que, logo, logo, a terra não terá mais serventias.

 

Estou acreditando piamente neste personagem. Com ele, o sucesso do meu livro é certo. E, enriquecer, será conseqüência. Terei dinheiro suficiente para comprar fazendas de pinus e mandar tratores impiedosos passarem por cima de tudo. Também sentirei enorme prazer ao observar lareiras do tamanho de vinte e nove campos de futebol. E será divertido jogar ao vento que ganhei aquilo tudo graças ao pinus. Meus olhos já brilham em verdes cifrões. Brilham de Pinus Elliottis. Afinal, tenho duas certezas: ou encho os cofres com meu personagem, ou encho os cofres com o pinus de verdade. Ao chegar esse dia, façam-me um exorcismo e fujam rápido, pois ao diabo ninguém é imune.

 

 

criado por Emir Ross    18:20 — Arquivado em: Sem categoria

9 de julho de 2009

Ficar a Solo

Nos últimos meses optei por longos períodos de reclusão. Afastei-me das pessoas, do futebol, das letras e até do sexo para dedicar-me a Solo, o livro do Juremir Machado da Silva.

Li seis vezes e meia.

A meia foi a primeira metade. Espero completá-la antes do final do ano.

Confesso: não senti falta alguma das coisas que renunciei neste período. Solo completava-me. Era como a outra metade de mim. Como se fôssemos corpo e alma, homem e mulher, direito e esquerdo, Chitãozinho e Xororó.

Solo fornecia-me companhia. Fazia-me rir. Brigava comigo. Dialogava. Até me fazia gozar. Suas páginas, hoje, estão tão cheias de mim quanto estou de suas sílabas.

Quem está com Solo, de mais nada precisa. Talvez, no máximo, uma música do Tom Waits na cabeça. Mas, se não tiver, não faz mal. Conseguirá viver e muito bem com Solo.

Solo é a soma de tudo. Do sarcasmo, das mulheres, do campeonato brasileiro, das viagens e da punheta que é a nossa vida. O resultado disso tudo é um imenso nada.

Acho que o tal Sartre, quando pensou em escrever aquele título, deveria ter escrito O Solo e o Nada. Ele errou por algumas letras a mais, outras a menos. Mas menos mal para nós que o Juremir chegou a tempo de dar-nos as respostas para as perguntas que nunca pensamos em fazer. Não pelas perguntas não existirem. Mas por nosso pensamento estar, por assim dizer, em desuso.

A narrativa de Solo vem em voz rouca, baixa. Até quando ela grita com a gente precisamos fazer um esforço para ouvi-la. Porque o melhor de Solo está nas entrelinhas. E é óbvio que grande parte de vocês não entenderá o que o autor quis dizer, assim como não fará idéia do que estou aqui tentando explicitar. De forma implícita, é bem verdade. Mas cada um entende o que merece.

Todavia, prestem atenção, não estou tentando dizer Nada.

Então, fiquem a Solo. Se conseguirem passar um tempo longe das pessoas, do futebol, das letras e até do sexo quem sabe captarão alguma mensagem.

 

criado por Emir Ross    17:12 — Arquivado em: Sem categoria

1 de julho de 2009

Lançamentos

Não entendo porque as pessoas gostam tanto de lançamentos. As pessoas deleitam-se com lançamentos. Vivem para lançamentos. Conheço uma que só vai ao cinema na estréia. Só compra livro em sessão de autógrafo e só vai a show se for o primeiro da turnê.

É, praticamente, como se só transasse na noite de núpcias. Há-de se fazer um estudo por essa predileção do ser humano.

Eu já estou começando a concordar com vocês todos que me acham um E.T, pois prefiro experimentar as coisas com mais calma. Dar tempo às coisas. E a mim mesmo. Para ser mais exato, prefiro coisas mais experimentadas; coisas que se possa degustar mais intimamente.

Tudo, em minha vida, é experimentado. Ou seja, velho. Minha mãe é mais velha que eu. Meu apartamento é mais velho que eu. Até minha irmã mais nova é mais velha que eu. A maioria de minhas namoradas foi mais velha que eu.

Agora, contudo, tenho experimentado mulheres mais jovens. Confesso: entendo parte dessas pessoas que preferem os lançamentos.

No entanto, tenho o leve pressentimento que essas meninas são uma cópia de minha personalidade ou, então, estudantes de paleontologia disfarçadas.

Porém, essa é minha única pré-disposição a diversões novas.

No último Festival de Cinema de Gramado, uma dessas pessoas que só transam na noite de núpcias tentou convencer-me a dar-lhe uma carona à cidade serrana:

“Mas, pra que ir lá?”

“Para ver os filmes, ora.”

“Filmes eu vejo aqui.”

“Lá é melhor.”

Disse-lhe então que lá era pior. Aglomeração. Empurra-empurra. Gente que se acha famosa. Aglomeração. Restaurantes lotados. Gente que se acha bonita. Empurra-empurra. Flashes. Penas voando por todos os cantos. Gente que se acha gente.

“Mas lá nós vemos antes de todos.”

Era o que eu queria ouvir. Não gosto de ver as coisas antes. Não quero fazer as coisas antes. Não quero nada que os outros não tenham feito, visto ou comido. Talvez eu tenha sido, em outra vida, um provador de comidas de um rei inescrupuloso. Gosto de ouvir as opiniões dos outros para depois fazer o contrário.

Essa pessoa que me convidou ao Festival, por exemplo, quando me diz que determinado filme, livro ou banda de rock é bom eu nem me preocupo em conhecer, já posso sair falando mal, pois tenho certeza de que é péssimo.

Geralmente, tudo que é lançamento é inútil. Se não for inútil, com certeza sobreviverá por gerações. Daí, segundo a lógica, deixa de ser novidade.

Quem gosta de coisas que sobrevivem, gosta, por consequência, de coisas boas.

Na minha idade, não há mais tempo para errar: seja com livros, pratos, bandas ou mulheres.

Por isso, vou na direção contrária. Na anti-moda. Frequento apenas lugares com músicas que gosto e pessoas que entendam um bocadinho, pelo menos, sobre a Pérsia ou Edgar Alan Poe.

É muito melhor que passar a noite com loiras esculturais sem conseguir contar-lhes uma piada que entendam. Embora elas, geralmente, tenham um enorme potencial de aprendizado.

 

criado por Emir Ross    18:12 — Arquivado em: Sem categoria

26 de junho de 2009

Carlo e Rita

Nunca parei para ler uma obra do Carlo Ginzburg. Não foi por desinteresse. Foi por ignorância mesmo. Para mim, este nome sempre foi um título para se ler nas universidades ou igrejas: locais onde se estuda o maior fenômeno da humanidade: a mentira.

Nas universidades e nas igrejas há um culto à ludibriação. Um culto à forma de enganar. Aos meios para se formar exércitos cegos. De se ganhar força, poder e dinheiro. E, finalmente, de se mentir falando a verdade.

Ou de falar a verdade mentindo.

Confesso que os únicos mentirosos que realmente me fazem fruir são as prostitutas e os guias turísticos. Mas não estou aqui pra falar deles.

Antes que vocês pensem que sou um expert na obra de Ginzburg, adianto que nada sei sobre ele além de uma matéria de página publicada na Bravo e de uma palestra que ele deu sobre uma estátua que nada entendi.

Mas, porque então falo desse cara?

Porque, nessa matéria da Bravo tem uma frase do CG que resume a humanidade:

uma afirmação falsa, uma afirmação verdadeira e uma afirmação inventada não apresentam, do ponto de vista formal, nenhuma diferença.”

De novo ressalto as prostitutas e os guias turísticos. Acho que gosto deles porque eu já sei o que eles farão e eles estarão ali pra me agradar com suas mentiras, ao contrário dos padres e professores.

Voltando à definição de Carlo Ginzburg: é tudo a mesma merda. Não importa se é correto o que nos fazem acreditar, né Sr. Ratzemberg. O que importa é que acreditemos e tudo se torna verdade.

Por isso acredito em tão poucas coisas nesse mundo. A começar por mim. Conhecendo-me como eu me conheço, é bom não acreditar. Sempre posso me arrepender depois.

E se nem em mim mesmo acredito, isso que sempre falo a verdade, como acreditar que Cabral não sabia o destino ao desembarcar na Baía. Como acreditar que o homem chegou à lua nos anos 60, se hoje, no século XXI ele não consegue sair da órbita. Como acreditar que a Gisele Bündchen não colocou silicone se aos 15 anos seu peito era uma tábua. E, enfim, como acreditar que uns digam aos outros o que fazer por se considerarem intelectualmente superiores e esses atendam com sorrisos de uma orelha a outra.

Enalteço as prostitutas e os guias turísticos. Porque a mentira deles é verdadeira. Nos faz bem.

Enquanto as verdades canônicas nos enterram e sufocam.

Então, pra encerrar, como parafraseei o Carlo Ginzberg, parafrasearei a Rita Lee, afinal,

tudo vira bosta”.

criado por Emir Ross    14:09 — Arquivado em: Sem categoria

5 de maio de 2009

Mistic: sobre meninos, lobos, verdades e mentiras

Como não gosto de ver filme na estréia, demorou alguns poucos anos até eu assistir Mistic River. Assisti ontem (para vocês, leitores, a palavra ontem é atemporal). Fiquei feliz com o que vi. O filme confirmou minhas idéias mais otimistas sobre o ser humano.

Confirmou de maneira incrivelmente aceitável minhas suspeitas de que as pessoas nunca acreditem quando se fala a verdade.

Não sei por que é mais fácil acreditar em mentiras. Mas o óbvio, o fácil, o verdadeiro, é definitivamente uma farsa.

 

Eu sou uma farsa que vocês levam a sério de uma a cinco vezes por mês.

Minhas verdades são tão mentirosas que mandam Dave Boyle para o colegial das inverdades.

O filme é um festival de mentiras. Até as críticas que saíram sobre ele não são verdades.

Principalmente quando dizem que Mistic River foi algo inédito. Até parece eu me repetindo nas frases que dizem para vocês fazerem algo mais útil do que ler meus textos. Ou vocês lembram do Kevin Bacon filmando roteiros que não envolvem pedofilia? Até quando ele faz o bom moço pensa-se que é o vilão da história e mais hora menos hora vai comer um menininho. Às vezes penso que ele foi comunista numa encarnação passada.

Em Sobre Meninos e Lobos ele é o lobo. Fuja, Dave. Fuja.

Até eu senti vontade de fugir do sofá quando vi sua cara aparecendo na tela. E, acreditem, ele era o policial do filme.

 

Se houvesse um Mistic River 2, os dois pequenos assassinos de Katie sofreriam embaixo dele. Eu sei disso. Eu vi.

Taí um roteiro que eu gostaria de escrever.

Mas não me convidem, por favor, senhores produtores, pois quando sou eu quem escreve, as mentiras fogem pelas entranhas. Isso, às vezes, é nojento.

Mais nojento que um menino de onze anos servindo de boneco ou o Kevin Bacon aparecendo como bom moço. E, por fim, mais nojento que a gente acreditando que seu personagem é apenas um policial em Mistic River. O Kevin Bacon, jamais. Não acreditem nele, ou nas linhas em que conste seu nome.

Eu não acreditaria.

criado por Emir Ross    10:47 — Arquivado em: Sem categoria

22 de abril de 2009

Os gurus

O Davi Coimbra é um ícone. Um rótulo. Uma marca de texto e de ser humano. Para ser mais específico, uma marca de homem. Um homem que sabe o que está fazendo e, principalmente, sabe o que estão pensando dele. Eu o respeito. Muito mais por ele ser exatamente o oposto do que cria para si: tenho certeza disso. Mas o respeito muito mais por algo que ele disse um dia e apenas eu sei.

“Se o filme tiver a palavra ‘amor’ no título, não assisto que é furada.”

 

Concordo com o Davi. Confesso que passei a admirá-lo como pessoa após ouvi-lo dizer isso.

O DC conseguiu resumir em uma frase e uma atitude o que eu passara a vida buscando. Contei essa descoberta para a Juliana, que torceu o nariz. Tudo bem, as mulheres sempre preferem não se entregar por inteiro ao que sabem ser verdadeiro.

Agora, finalizo o que falei no início desse texto: o Davi Coimbra é um guru.

 

Eu havia pensado em escrever esta crônica para relatar uma descoberta fantástica. Uma descoberta minha que mudaria a visão da crítica como um todo. Havia pensado por esses dias que se passaram em relatá-la; para isso utilizaria a frase do DC para introduzir o tema. O Davi nada mais seria que um exemplo como início de raciocínio mais ou menos assim: ‘o Davi Coimbra disse que se o filme tiver a palavra amor no título é uma senha indicando que você não deve assisti-lo. Partindo disso, descobri…’

E, agora que estou escrevendo esse texto, esqueci qual fora minha descoberta fantástica que mudaria a visão sobre as artes como um todo.

Todavia, conhecendo-me um pouco como me conheço, minha fórmula deveria ser mais ou menos um ‘jamais leia um livro que comece com O dia estava…’ ou ‘jamais compre quadros de pintores que tenham feito flores coloridas.’

Como se Van Gogh e Poe não fossem recomendados.

Mas já que esses autores são ícones em suas áreas plásticas e literárias, assim como o Davi é nas guruísticas, creio que nada lhes tenho a dizer, pois sequer tenho a competência de anotar minhas idéias extraordinárias para não esquecê-las no dia seguinte. Está aí a grande diferença entre eu e os grandes mestres.

 

Idéias inovadores todos têm. Raciocínios fantásticos, todos fazem. Competência para anotar isso na mesa de um bar ao invés de ficar olhando para as pernas da gostosa de vestido curto, só os gurus possuem.

 

criado por Emir Ross    10:36 — Arquivado em: Sem categoria — Tags:
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