Vocês, que são inteligentes e cultos, logo, muito mais aptos a interpretar as coisas, estão vomitando de tanto ouvir a questão a-arte-imita-a-vida e a-vida-imita-a-arte.
Eu, como estou engatinhando nas questões do saber e da civilização ainda estou no capítulo o-futebol-imita-a-vida.
Esses dias jogaram Inter e Náutico no Beira-Rio.
Não se preocupem, este não é um texto sobre futebol. É um texto sobre o nada, como sempre acontece com as palavras que ordeno. Nietzsche certamente está com raiva de mim. Ou orgulho, depende do ponto de vista.
Na rádio em que eu escutava o jogo, o comentarista elogiava a atuação do jogador Marcão. Um indivíduo odiado pela torcida vermelha. Prestem atenção nos verbos, eu não escrevi nem menosprezado nem pouco valorizado. Eu escrevi odiado. Funcionário que dá todo seu esforço, faz hora extra sem ganhar por isso, não pede aumento e nunca fica de atestado. Claro que este é um personagem de ficção. Assim como o Marcão jogar bem.
O jogador estava a ter boa atuação na partida, segundo o comentarista. Mas no intervalo, os torcedores entrevistados pediam sua saída. Reclamavam de sua mediocridade, de seu esforço que não gerava frutos. Você pode também substituir a palavra frutos por lucros.
Mas os torcedores são apenas apaixonados. Nada entendem.
Quem entende é o comentarista. Ele estudou para isso. Tem a voz e o microfone. E opiniões seguras e garantidas.
E o comentarista avisou: Marcão faz uma grande partida. E o comentarista previu: Ele ainda fará gol hoje. Repito, o Marcão fará gol hoje.
Esses homens de previsões, profetas do contemporâneo, ganham a vida a adivinhar o inevitável. Mas o sucesso de suas empreitadas depende muito mais dos esforçados a carregar piano do que de sua perspicácia. Porém, cá entre nós, hoje em dia ninguém se interessa por esforçados, nem o servente de pedreiro precisa nesses tempos ser esforçado. Hoje, o que se exige é camisa passada e barba aparada.
O jogo seguiu no segundo tempo.
O time grande atacando. O pequeno se defendendo. A bola não entrando.
Até que, bem no finalzinho, lá no finalzinho, o time grande fez um gol. Estava decretado o resultado.
Mas e o gol do Marcão?
O comentarista acertara apenas parte da previsão. O Inter faria gol. Já, para Marcão, ficaria o gostinho da comemoração e da vitória.
Mas houve um ataque a dez segundos do final da partida.
Bate-rebate dentro da área, chuta daqui, empurra dali.
Goooooooooool.
Comemoração.
Abraços, sorrisos, rede balançando.
E acreditem. Foi gol do Marcão.
Contra.
O jogo terminou empatado.
Mas o comentarista estava certo. Só não mencionara a goleira em que Marcão marcaria o gol. Mas isso, meus amigos, isso ninguém perguntou.
Os profetas sempre estão certos. Errados são os que não interpretam corretamente suas previsões. Então, se você ainda não é craque em previsões ou interpretações, é bom não se esforçar muito. Faça a barba, passe a camisa. Uma boa loção também ajuda.